Trilhas em alta velocidade: 'Ford vs. Ferrari' traz protopunk e rocks empolgantes dos anos 1960
Na Trilha do LEÃO

Trilhas em alta velocidade: 'Ford vs. Ferrari' traz protopunk e rocks empolgantes dos anos 1960

O “Tema Da Vitória”, que acompanhava a subida ao pódio de Ayrton Senna, nas corridas de Fórmula 1, jamais será esquecido. O tema, composto pelo maestro Eduardo Souto Neto e tocado pela banda Roupa Nova, marcou época e, até hoje, é associado a Senna, mesmo que (pouco) usado depois, para outros.

Carreiras de carro, sejam Fórmula 1 ou não, sempre pedem ou estão associadas a música veloz, ágil e empolgante. Esse tipo de trilha se tornou bastante popular, sobretudo a partir dos anos 90, com as compiladas para jogos do PlayStation, sobretudo para “Gran Turismo”. Eu, que não tenho habilitação, mas adoro jogos do gênero, me sentia à vontade quando iniciava o primeiro GT ao som de “As Heaven Is Wide”, do Garbage. Combinava perfeitamente com o clima de aquecimento do game. Como as músicas tocavam aleatoriamente à medida que se jogava, a gente torcia para que entrasse aquela do Ash (“Loose Control”) ou do Chemical Brothers (“Everything must go’), remix feito em cima de original do Manic Street Preachers.

Sequências de “Gran Turismo” continuaram saindo e trazendo outras músicas que se casavam perfeitamente com os testes e pegas nas pistas. Eu ficava muito mais animado quando rolava “My Favorite Game”, do Cardigans, por exemplo, que aparece no volume 2. Neste, havia também Moby, Rob Zombie, Dandy Warhols, Stone Temple Pilots, Foo Fighters e até uma versão bacana para “Cars”, do Gary Numan, feita pelo Fear Factory, bem mais nervosa. Outros GTs continuaram vindo ao longo dos anos. Mas nunca achei as seleções tão boas quanto as feitas para os dois primeiros volumes. Houve até uma toda composta a base de música clássica, para o volume 4.

Lembrei de "Gran Turismo" enquanto assistia ao empolgante “Ford vs Ferrari”, que está em cartaz. Baseado em fatos reais (a obsessão da americana Ford em construir um carro bom o bastante para bater a italiana Ferrari, nas 24 Horas de Le Mans, na segunda metade dos anos 1960). A cada cena de teste, treino ou corrida, imaginava uma música específica em minha cabeça. Mas nem foi preciso. Porque a trilha em si é boa o bastante. E representa bem a época. E o clima que o filme pede.

Tanto quanto o último filme de Tarantino, “Era uma vez... em Hollywood”, grande parte de “FVF” se passa na ensolarada Los Angeles dos 60s, antes de se transferir para as perigosas pistas francesas (Le Mans não acontecia num circuito especial, mas em vias normais). Então, enquanto acompanhamos a saga do piloto de testes Ken Miles (feito com muita garra por Christian Bale) e pelo projetista Carrol Shelby (Matt Damon, em seu melhor), hits hoje obscuros vão sendo apresentados.

Assim, vamos pegando embalo nas correrias ao som de “Polk salad Annie”, de James Burton; a manjada “Money (That’s What I Want”), do Kingsmen (a banda do “Surfin’ Bird” original); “Have Love, Will Travel’, do Sonics; “Strangers In A Strange Land’, dos Byrds; “Hipsville 29 B.C.”, do Sparkles; “Flying Saucers Rock n’ roll”, de Billy Riley & His Little Green Man; e a guitarra “perigosa” de Link Wray em “Ace Of Spades”; numa sequência cheia de instrumentais, de grupos protopunks que, claramente, inspiraram os Cramps (que até regravaram algumas destas). De deixar Tarantino com inveja. Trilha tão boa que, quando a gente se dá conta, o filme de duas horas e meia — igualmente contagiante —, passou voando. Vrum!

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