Trinta anos depois de ver o pai matar a mãe e se suicidar em seguida, Alison Moorer usa a música para amenizar a dor
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Trinta anos depois de ver o pai matar a mãe e se suicidar em seguida, Alison Moorer usa a música para amenizar a dor

Allison Moorer lançou seu novo disco, "Blood", em 25 de outubro de 2019. O sucessor de "Not Dark Yet" (2017) destaca-se dos demais álbuns da carreira da artista country por tratar de um drama familiar que devastou sua vida, e de sua irmã mais velha, a renomada cantora Shelby Lynne, há mais de 30 anos.

A mãe de Allison e Shelby foi vítima de feminicídio pelo pai que, na sequência, cometeu suicídio. O duplo assassinato foi assistido por ela e Shelby — Allison tinha 14 anos, Shelby, 17 — que estavam na casa quando ouviram os tiros. Só agora, aos 47,a cantora se sente "curada" para poder falar da tragédia em suas músicas — e também num livro de memórias, cujo título acompanha o do disco mais recente.

Há 19 anos, ela compôs a faixa "Cold, Cold Earth", uma narrativa sobre a morte dos pais, que apenas agora foi lançada em "Blood". Originalmente, a canção sairia no disco "The Hardest Part" (2000), mas Allison desistiu de divulgá-la pois, no fim das contas, não se sentia confortável com a exposição da tragédia.

Com o passar do tempo, ela conseguiu superar a vulnerabilidade e colocou tudo isso em sua arte. "Muito deste disco e deste livro, para mim, é sobre o que aconteceu naquela época e como isso afetou o meu crescimento como adulta", disse ela para a "Nashville Public Radio", referindo-se aos abusos causados pelo pai. "Tive que desaprender muitas coisas. Já outras, eu não consegui desaprender."

Allison e sua família viviam no estado americano do Alabama antes da tragédia acontecer. Sua infância e adolescência foram marcadas por episódios de violência e abuso psicológico, mas também pela música, sempre presente no lar que dividia com os parentes. Sua mãe cantava, e seu pai tocava em bandas locais da cidade onde moravam. Para sua surpresa, logo após a morte dos dois, sua irmã Shelby encontrou letras compostas pelo homem que assassinou a matriarca da família, e decidiu colocar uma delas em "Blood".

Uma das lembranças de Allison do dia em que seus pais morreram é a roupa que estavam usando. Ela agradeceu secretamente por sua mãe estar vestindo um hobby de inverno, mesmo em agosto, quando é verão nos EUA, pois, desta forma, as cicatrizes das agressões por parte do pai não ficavam tão visíveis.

"Me lembro de tudo, das roupas, dos sapatos. Ele estava usando uma meia preta e a outra azul. Aquilo ficou marcado em mim. É um indicador de uma pessoa que não liga para si, que sequer se importa se as meias não combinam. Isso parte meu coração, pois ele devia estar muito desesperado", contou ela.

Allison Moorer/Getty Images
Allison Moorer/Getty Images

Allison não soube dizer ao certo com que frequência o pai maltratava sua mãe. Ela se recorda, entretanto, que a mãe tinha o hábito de roer as unhas e vivia nervosa.

"Meu pai sempre batia na mão dela quando ela estava roendo as unhas. Era algo muito violento, mas, na nossa frente, não passava disso. Imagino como ele a aterrorizava dentro do quarto de portas fechadas...", falou a cantora. "Minha mãe não era uma pessoa do tipo simpática, ela vivia mal-humorada e tinha resposta para tudo. Não sei porque ela amoleceu com meu pai. É o tipo de coisa que eu jamais saberei responder."

Mas Allison tem um palpite, afinal, descreveu o pai como uma pessoa "instável". "Ele era capaz de te colocar no topo do mundo e, depois, uma nuvem voltava a assombrá-lo. Em geral, ele também conseguia ser um cara carismático, esperto, tinha uma risada contagiante e era talentoso. É uma pena que tenha vivido de tal maneira", considerou ela, que o vê como um homem "doente".

"Ele com certeza pensava em mim e em minha irmã, mas estava com alguma doença mental", explicou ela, que depois da morte dos pais, foi viver com os tios e com Shelby. "Ele estava alcoolizado no dia da morte. Chequei isso na autópsia para ter certeza que essa má decisão não foi tomada de cabeça fria. Mas não sei se os dois estariam vivos se ele estivesse sóbrio."

A música de autoria de seu pai encontrada por Allison se chama "I'm The One To Blame" (algo como, "a culpa é minha", em tradução livre). Ela foi musicada pela irmã, Shelby, e tem uma letra de partir o coração: "I'm the one to blame / But I've paid the cost / Time has made me see just how much I lost / Jealousy and pride drove me to my shame / I'm so sorry, dear, but I'm the one to blame" ("Sou o culpado/ Mas paguei o preço/ O tempo me faz ver quanto perdi/ Ciúme e orgulho me levaram à vergonha/ Sinto muito, querida, mas sou o culpado").

"Nunca ouvi meu pai cantar essa música e não sei quais eram suas intenções", afirmou Allison. "Depois que minha irmã encontrou a letra numa antiga pasta, isso nos abalou profundamente. Agora, faz todo sentido que ela esteja em 'Blood'. É como se eu estivesse dizendo a ele: 'Ok, pai, agora o senhor será ouvido'. Dei voz a ele e acho que encaixou perfeitamente."

Hoje, Allison é mãe de um menino de 9 anos, John Henry, que é autista. Ele ainda não desenvolveu a fala e não costuma se comunicar com frequência. Mesmo tendo um passado familiar tão sombrio, a cantora sempre soube que queria ter filhos e se casar. "A única coisa que precisava para isso era estabilidade emocional. Assim, meu filho não precisaria crescer como eu cresci. Mas, estabilidade emocional é algo muito difícil, que pode mudar a qualquer hora. Como ele tem autismo, precisei melhorar ainda mais isso em mim", completou ela, que já foi indicada ao Oscar, Grammy e a um prêmio no Academy of Country Music Award.

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