Tudo Tanto: Alessandra Leão retorna à percussão no ritualesco ‘Macumbas e Catimbós’
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Tudo Tanto: Alessandra Leão retorna à percussão no ritualesco ‘Macumbas e Catimbós’

"A escolha foi fazer um disco todo de percussão e voz, tendo como base a formação instrumental usada nos terreiros em Pernambuco: um trio de ilús — yan, melê e melê-yancó —, ferros e abês", explica a cantora, compositora e percussionista Alessandra Leão sobre seu disco "Macumbas e Catimbós", lançado nesta sexta-feira e dedicado à pesquisa da música afrobrasileira.

"Eu (e os percussionistas) Maurício Badé e Abuhl Jr. juntamos nossos tambores, nossa amizade de longos anos, nosso amor e respeito, nossa trajetória pessoal dentro da religião e a profissional como músicos. Nos demos a liberdade de arranjar cada música nessa encruzilhada entre terreiro, palco e estúdio. Sem nos impor as mesmas regras musicais de quando tocamos dentro de algum ritual, nem para o toque, nem para a sequência do repertório, mas nos impondo várias camadas a mais de cuidado, respeito e atenção com cada uma das músicas".

'Macumbas e Catimbós': álbum resgata raízes sagradas de Alessandra Leão / Foto: Foto: Bia Varella / Divulgação
'Macumbas e Catimbós': álbum resgata raízes sagradas de Alessandra Leão / Foto: Foto: Bia Varella / Divulgação

"Macumbas e Catimbós" é mais um salto na discografia desta pernambucana que se desvia de rótulos musicais com a mesma malemolência, suavidade e firmeza que desliza no palco. Depois de anos nas trincheiras do clássico grupo Comadre Fulozinha — que vive uma pequena renascença com os shows recentes que tem feito ao lado das ex-comadres Karina Buhr e Isaar —, Alessandra se despede da trilogia "Língua", composta por um trio pontiagudo de EPs ("Pedra de Sal", "Aço" e "Língua") em que as guitarras pós-punk de Rodrigo Caçapa e Rafa Barreto se entrelaçam nas doces e melancólicas canções de Alessandra, criando uma emoção musical e uma sonoridade únicas.

Para isso, ela reuniu verdadeiras entidades da música brasileira, como Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Sapopemba, Luiz Quiguiriçá e o Terreiro Recanto Quiguiriçá. “Cada um com suas vozes, músicas e história, celebram a sabedoria do tempo", diz a cantora. Essa reunião não é apenas de veteranos, mas também celebra contemporâneos. Alessandra também teve a alegria de ter o que ela chama de “coro festivo” e cheio de alegria, com nomes como Lívia Mattos, Lenna Bahule, Karina Buhr, Isaar e Manu Maltez. Esses, se juntam a outros nomes, que vêm “para celebrar o tempo de agora". O disco é dissecado no encarte que fez para acompanhá-lo (e que conta com textos dela, de Juçara Marçal e de Luiz Antônio Simas) que pode ser visto aqui.

Esse disco é para celebrar o sagrado e seus diferentes nomes e formas. Não apenas o sagrado das macumbas e dos catimbós, mas o sagrado em forma de música, de dança, de festa

E embora muitos tenham achado radical ela abandonar o formato banda para se dedicar à voz e percussão, ela não estranha: "É daí que eu venho. Essa é a maneira que eu mais toco ao longo desses anos, uma das minhas principais escolas e como componho a maior parte das minhas músicas. Praticamente todos os meus discos têm a presença do ilu (o tradicional tambor de terreiro)", explica. "O foco do 'Macumbas e Catimbós' norteou todo o processo de produção, a maneira de pensar nos arranjos, de gravar, de processar o som e de mixar e masterizar", continua, lembrando que a fagulha inicial do álbum começou no final de 2017, em uma das apresentações da temporada que fez no teatro Centro da Terra, em São Paulo, reunindo Maurício Badé, Abuhl Jr., Douglas Germano, Vânia Medeiros e Juliana Godoy para uma sessão de improviso. "Decidi seguir adiante, transformei essa noite em show e veio a intuição de fazer o disco. Pedi licença e permissão aos guias e segui", diz.

Para Alessandra, o disco é uma celebração, uma oferenda, um presente que ela oferece aos Orixás e aos guias e entidades que a orientam. "Não pretendi nem pretendo reproduzir uma gira ou um xirê. O disco uma celebração à música de terreiro, ao tambor — principalmente ao ilu. Não é um disco de ‘música religiosa’, é sobre isso também, mas é um disco de música brasileira. Esse disco é para celebrar o sagrado e seus diferentes nomes e formas. Não apenas o sagrado das macumbas e dos catimbós, mas o sagrado em forma de música, de dança, de festa", conclui.

Alessandra Leão: 'Que sejamos livres para acreditar no sagrado com a forma e nome que quisermos' / Foto: Bia Varella / Divulgação
Alessandra Leão: 'Que sejamos livres para acreditar no sagrado com a forma e nome que quisermos' / Foto: Bia Varella / Divulgação

“Macumbas e Catimbós” também toca em questões como o lugar da mulher e a intolerância religiosa. Alessandra observa que, por conta da ignorância e de preconceitos enraizados na sociedade, os termos “macumba” e “catimbó” acabaram sendo vistos de forma pejorativa, como algo ligado ao mal. O nome do álbum é uma também uma demonstração de orgulho pela fé que a move. “Muita gente de terreiro acaba se declarando espírita — o que não deixa de ser verdade —, para não sofrer tantos preconceitos. A minha decisão pelo nome do disco é uma maneira de dizer que, mesmo em tempos ainda de tanta intolerância, somos catimbozeiros e macumbeiros e está tudo bem com isso. Como está tudo bem ser ateu, católico, evangélico, budista, agnóstico, judeu, muçulmano... Que sejamos livres para acreditar no sagrado com a forma e nome que quisermos", reflete.

"No final sempre tenho dito que esse disco é da ordem do tempo. Precisei de 40 anos para poder fazê-lo e não poderia fazê-lo assim sozinha. Precisei dos que conheci antes e dos que estão comigo agora. Ele é uma volta, um estar aqui e um seguir em frente".

Fotos: Bia Varella / Direção de Arte: Juliana Godoy, Marcelo Gandhi e Alessandra Leão

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