Tudo Tanto: Ava Rocha e Negro Leo desbravam a China
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Tudo Tanto: Ava Rocha e Negro Leo desbravam a China

Dois dos artistas mais importantes da música brasileira atual também são um casal. A carioca Ava Rocha e o maranhense Negro Leo transitam por áreas aparentemente paralelas — enquanto ela enfeitiça a raiz da música brasileira com altas doses de poesia, noise e música de vanguarda, ele desconstrói a canção na marra, empunhando um violãozinho surrado como se Jorge Ben e Lou Reed fossem a mesma pessoa. Mas o caminho de Leo e Ava é o mesmo — e agora os dois embarcam rumo à China para parir “o primeiro álbum sinobrasileiro da história”, como Leo se surpreende ao me contar pelo telefone.

O contato entre o casal e o país aconteceu por conta de outros dois brasileiros: o músico Alê Amazonas, que toca na banda chinesa Little Monster, veio com seu grupo para o país em 2016. Em busca de parceiros musicais, recebeu a dica do cineasta Gregorio Gananian, autor do documentário “O Inaudito”, sobre o guitarrista tropicalista Lanny Gordin, para procurar por Leo. Os dois entraram em contato e fizeram shows juntos, dividindo até um compacto pelo selo chinês Genjing Records. A banda voltou para a China com a promessa de levar o músico maranhense que então morava no Rio para seu país, e a confirmação da promessa veio no ano passado, com o convite se estendendo também para Ava Rocha.

Os dois, que moram em São Paulo, têm se tornado cada vez mais influentes na atual cena brasileira, cada um à sua maneira. Leo percorre festivais independentes e toca entre moquifos do underground e galerias de arte. Às vezes vem acompanhado de três amigos — o baixista Fabio Sá, o baterista Sérgio Machado (às vezes substituído por Thomas Harres) e o técnico de som Bernardo Pacheco — em fritações pesadas que vão do samba rock ao noise. N’outras, se entrega ao jazz com músicos que escolhe a esmo. Lançou discos importantes como “Ilhas de Calor”, “Niños Heroes”, “Água Batizada”, “Aktion Lekking” e “Coisado” (este último bancado pelo instituto Goethe alemão), que infelizmente ainda caem no rótulo genérico de “música experimental”.

Ava, por sua vez, vem se destacando como uma das principais cantoras e compositoras de sua geração. Depois do fabuloso “Ava Patrya Yndia Yracema”, de 2015, ela lançou o denso e hipnótico “Trança”, reunindo num dos melhores discos do ano passado, alguns dos principais nomes da música brasileira atual, de Karina Buhr ao Dinho dos Boogarins, do Curumin a Linn da Quebrada, passando por Tulipa e Gustavo Ruiz, Kiko Dinucci e Juçara Marçal, Domenico Lancelotti, Alessandra Leão, Juliana Perdigão, Thomas Rohrer, Iara Rennó, entre outros.

A estada na China, mais precisamente em Pequim, conta com uma apresentação no próximo dia 15, quando os dois tocam ao lado do guitarrista noise Li Jianhong e o vocalista Bayan Dalai, das bandas Horse Radio e December3am, no espaço fRUITYSPACE. Depois, começam a gravação deste projeto ao lado da produtora de música eletrônica Wu Shanmin, que atende pelo pseudônimo de 33EMYBW, e do produtor Han han, que usa o nome artístico GOOOOOSE, para finalmente apresentar o trabalho ao vivo no dia 30 de março no Modernsky Lab, em Xangai.

O projeto, idealizado por Amazonas, é uma parceria da embaixada brasileira na China com a gravadora Dafu Records e chama-se China Tropical — há previsão de novas edições de encontros do tipo nos próximos meses. “A gente não sabe nada da China, mas estudamos um pouco a história do país”, explica Leo, na expectativa da viagem. “Estou estudando pinyin (a versão do idioma chinês para os caracteres ocidentes) de leve”, avisa.

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