Tudo Tanto: Boogarins se modificam e criam universo próprio de sons e ideias
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Tudo Tanto: Boogarins se modificam e criam universo próprio de sons e ideias

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A história de "Lá Vem a Morte", que os Boogarins lançaram em 2017, é um conto de um disco pela metade. "Quando o trabalho que se tornou o 'Lá Vem a Morte' foi terminado no fim de 2016, ele não soava como queríamos", lembra o guitarrista da banda psicodélica goiana Benke Ferraz. "Passamos um mês em uma casa em Austin, no Texas, entre turnês pelo Estados Unidos e Canadá, e nós mesmos cuidamos de tudo: alugamos equipamento, montamos e gravamos tudo na casa. Foi massa, mas a sonoridade que tiramos ali, mesmo usando equipamentos de ponta, acabava se aproximando do lo-fi de celular que eu vinha explorando e rolou de fechar um conceito sonoro e lírico com aquelas faixas". Agora o grupo prepara-se para o lançar seu quarto álbum, "Sombrou Dúvida", que chega aos ouvidos públicos no dia 10 de maio. O primeiro aperitivo é a quase faixa-título, "Sombra ou Dúvida", que o grupo lançou esta semana.

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"Gordon Zacharias, nosso empresário, que nos ajuda nas produções desde o lançamento oficial do primeiro disco, 'As Plantas que Curam', propôs que fizéssemos novas sessões de gravação em março de 2017, no Space ATX, um estúdio em Austin, com o Tim Gerron cuidando da engenharia. Assim a gente poderia focar realmente nos sons e arranjos", continua o guitarrista. "Esperávamos que as faixas que ficaram de fora do 'Lá Vem a Morte' pudessem ajudar a estruturar mais rápido o disco que viria a seguir, mas o material captado em estúdio soava muito mais rico e o processo pra misturar as faixas dos dois projetos foi bem tortuoso. No fim, fizemos uma nova sessão de gravação no estúdio, em abril de 2018, de onde saiu o single 'Sombra ou Dúvida', e apenas duas faixas daquele processo de 2016 entraram no 'Sombrou Dúvida', 'Invenção' e 'Te Quero Longe'", explica. 

O novo disco é mais um degrau na escalada estética que o grupo vem se propondo desde o primeiro trabalho, distanciando-se de suas raízes psicodélicas clássicas rumo a uma nova forma de expansão lisérgica, incorporando elementos de baixa tecnologia, do lo-fi digital e de pós-produção — usando gravações e edições feitas no celular como referência. Mas não há um direcionamento específico em relação a isso, a sonoridade vai surgindo a partir do fluxo natural de Benke, Dinho Almeida (o outro guitarrista e fundador do grupo), o baixista Raphael Vaz e o baterista Ynaiã Benthroldo

"Além do papel que naturalmente assumo de diretor musical, a influência de cada um na sonoridade final é muito grande e eu acabo mais dizendo 'vamos repetir isso' ou 'vamos tentar algo diferente' — ou também fazendo isso e editando as coisas. Grandes momentos do disco são retratos da banda tocando ao vivo canções pela primeira vez, criando os arranjos frescos na hora e praticando até termos takes perfeitos — ou bons o suficiente para editá-los", continua Benke. "O Gordon também exige da gente um material com melhor nível de composição, mais bem acabado, desde o 'LVAM', e também foi adicionando elementos mais clássicos à faixas centrais do disco, como 'Invenção' e 'As Chances'. Também chamamos o Bonifrate para cantar e tocar viola caipira em 'Dislexia ou Transe', e o Tagore fez um coro pra gente em 'Desandar'".

Pergunto se há uma proximidade fraterna entre este novo álbum e o anterior como havia nos dois primeiros discos da banda, "As Plantas Que Curam", de 2013, e "Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos", de 2014. "Se for para tratá-los como discos irmãos, são daqueles que foram separados na maternidade e se tornam rivais", ri o guitarrista. "Mas se fizermos essa ligação que você fez com 'Plantas' e 'Manual', dá para ser sim. O 'Sombrou Dúvida' acabou captando nossa cara mais ao vivo, como o 'Manual' fez em 2014, só que mantendo características que apareceram pela primeira vez no 'LVAM'. A principal delas é o Moog, que o Fefel usa pra fazer os baixos mais eletrônicos".

"Acho que esses dois discos são os últimos retratos de um Boogarins meio desenfreado, sem tempo e espaço para outros planos que não tivessem a ver com a banda", segue Benke. "Hoje isso está um pouco diferente, mas essas gravações e boa parte do momento de pós-produção foram nesse pique. Acho que de fato só o 'As Plantas' não foi concebido dessa maneira, todo o resto foi feito numa sensação de estarmos atrasados, apressados. Espero que esses dias de pressa estejam pra trás".

'Sombrou Dúvida' nos deu bastante trabalho e já nos dá orgulho mesmo antes de ser lançado, então vamos aproveitar bem esse momento

O grupo deve fazer poucos shows no Brasil durante o ano — eles dividem o palco do Cine Joia, em São Paulo, com a cantora Tulipa Ruiz na próxima quinta-feira, dia 21 de fevereiro — e deve se concentrar na turnê europeia prevista para julho e agosto. "No Brasil, as coisas estão sendo planejadas para depois desse lançamento europeu mesmo, poucas datas vão rolar antes", explica o guitarrista. 

Benke também acaba de produzir o segundo disco do baiano Giovani Cidreira, uma incursão pesada rumo a este lo-fi digital com o qual brincou no próximo disco de sua banda. "Foi tudo muito louco", lembra rindo. "Começamos a nos encontrar depois do festival Bananada do ano passado, fazendo registros das canções dele com o equipamento que sempre tínhamos na mão: meu computador, o Casio do Giovani e meu celular onde gravávamos as vozes. Fizemos uns quatro encontros desses ao longo do segundo semestre, daí rolou agenda no estúdio da Red Bull e trabalhamos por duas semanas lá. No fim, tudo isso virá ao mundo de um jeito bem legal, essas faixas 'demos' do ano passado e o material produzido com banda".

O próprio Boogarins não parou para descansar mesmo antes do lançamento do novo disco. "Muita coisa já está composta e gravada", explica. "Dessa última sessão que fizemos em 2018 só uma faixa foi usada pro 'Sombrou Dúvida', então temos muito material já produzido, e isso pode virar um trabalho de pré-produção. Também temos umas faixas antigas em inglês que começamos a trabalhar em estúdio, mas nada disso tem previsão de sair. 'Sombrou Dúvida' nos deu bastante trabalho e já nos dá orgulho mesmo antes de ser lançado, então vamos aproveitar bem esse momento".

Quando o pergunto sobre a cena independente brasileira atual, ela retorna com outra pergunta: "Dá para apontar o dedo para tudo e todos aqui no Brasil, qualquer resposta falando da mídia, das gravadoras, do apoio público poderia ser boa, né?", ironiza antes de ir direto ao assunto. "Mas para falar diretamente aos principais interessados em uma pergunta como essa — os artistas — acho que falta uma consciência de momento e lugar para a maioria das bandas e artistas independentes. Acredito que para a música atingir pessoas em cheio, ela precisa ter uma verdade quase que punk. Ou então ser muito bem elaborada para o nicho que ela foi pensada, mas daí esse cuidado ou percepção da própria arte fica em segundo, terceiro, quarto plano por uma falsa necessidade imediatista de se mostrar 'bem sucedido' ou 'profissional' de uma forma que não é realmente necessária até um certo ponto no seu reconhecimento enquanto músico. Ter produtor, assessoria, se matar ou se vangloriar por views e likes — uma série de coisas que não rendem tudo aquilo que você espera e se frusta. Resumindo, acho que boa parte dos problemas do cenário são resolvidos quando o artista passa a se importar com o que lhe diz respeito e constrói um universo próprio". Os goianos já criaram o deles.

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