Tudo Tanto: Com ‘Bluesman’, Baco Exu do Blues muda o rumo do rap brasileiro
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Tudo Tanto: Com ‘Bluesman’, Baco Exu do Blues muda o rumo do rap brasileiro

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” — a emblemática e esperançosa frase do dramaturgo francês Jean Cocteau encaixa-se como uma luva no novo disco do jovem baiano Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, mais conhecido pela alcunha de Baco Exu do Blues. Ao lançar seu segundo e aguardado “Bluesman” nesta sexta-feira, ele abala o prumo da música brasileira em vários sentidos: consolida o rap como gênero musical mais importante do Brasil hoje; desvia o eixo do rap brasileiro de São Paulo para o nordeste; lança o disco mais importante do gênero desde “Nó na Orelha” do veterano Criolo; e pauta a questão racial como um dos principais problemas do país. Assim, ele entra firme como forte candidato ao posto de melhor disco de 2018.

Na capa, uma foto de João Wainer antes da demolição do Carandiru sintetiza o espírito de resistência do disco ao mostrar um detento trajado de bluesman com uma guitarra em punho, dentro da cadeia. “Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos, o primeiro ritmo que tornou pretos livres”, rima o MC baiano na primeira faixa, que batiza o disco. “A partir de agora considero tudo blues / O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues / O funk é blues, o soul é blues / Eu sou Exu do Blues / Tudo que quando era preto, era do demônio / E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de Blues / É isso, entenda: Jesus é blues”.

Baco nasceu em 1996, quando o rap já era um gênero comercial e palatável. Foi o ano de lançamento do clássico de Tupac, “All Eyez On Me”, do disco de estreia de Jay-Z, e do segundo disco de Nas. No mesmo ano, o rap brasileiro começava a engrossar a voz, com álbuns como “Preste Atenção”, de Thaíde e DJ Hum, e “Prepare-se”, estreia do brasiliense Gog. Baco não passou pelos perrengues dos pioneiros, não teve que ralar na base para ser compreendido como um artista, mas isso não quer dizer que não saiba de onde veio. Seu primeiro disco, “Esú”, lançado no ano passado, esteve nas listas de melhores do ano para além do rap, e o hit “Te Amo Desgraça” abriu-lhe portas impensáveis para o gênero. Mas tudo começou com “Sulicídio”.

Sou meu próprio deus; sou meu próprio santo; meu próprio poeta. Me olhe como uma tela preta, de um único pintor. Só eu posso fazer minha arte. Só eu posso me descrever. Vocês não têm esse direito.

Lançada há dois anos, “Sulicídio” é uma parceria com o rapper pernambucano Diomedes Chinaski que começou como uma forma de tripudiar dos fãs de rap no nordeste que só gostavam do que era feito no Rio ou em São Paulo. Uma versão local do complexo de vira-latas brasileiro, que gosta de aplaudir os gringos sem prestar atenção no que acontece no quintal de casa. Só que, quando a música começou a fazer sucesso, muitos — principalmente no Rio e em São Paulo — entenderam a faixa como um ataque ao rap do sudeste, como se tentassem reproduzir a treta entre as costas leste e oeste dos Estados Unidos no Brasil. A faixa rendeu muita discussão online, alguns MCs vestiram a carapuça e gravaram respostas, mas, na prática, jogou holofote sobre o novo rap nordestino, que ultrapassa os clichês do gênero no Brasil, ao mesmo tempo que tenta modernizar o hip-hop fazendo pontes entre as realidades estrangeira e local.

Baco aproveitou aquele momento e emplacou “Esú”, tornando-se logo um novo nome do rap que todos queriam ter por perto. Viajou por todo o Brasil, participou de festivais, ganhou prêmios e celebridade, surfando na onda de “Sulicídio”, que tornava seu disco de estreia ainda mais baiano, trazendo referências ao candomblé, aos blocos afro, ao carnaval e à tropicália. Pavimentou o caminho para seu segundo disco chegar com força.

E é assim que chega “Bluesman”: forte. Ele abre com um sample de Muddy Waters, cita Beyoncé e Exaltasamba e reforça, a cada sílaba, a importância da negritude, de seu posicionamento a partir da questão racial, cuspindo e rindo da cara do racismo à brasileira, que resolveu sair do armário da dita “democracia racial”. Ser lançado no final de 2018, inclusive, faz o disco ganhar nuances e aplicar tensões em áreas inflamadas da auto-estima brasileira. Com participações de nomes tão diferentes quanto o vocalista do grupo O Terno, Tim Bernardes, do trio Tuyo e a rapper 1Lum3, o disco encerra com a faixa “B.B. King”, que além de brincar com a melodia do refrão de “You Don’t Know Me” (que Caetano Veloso compôs em Londres), termina com um texto escrito pelo próprio Baco:

“1903. A primeira vez que um homem branco observou um homem negro, não como um um animal agressivo ou força braçal desprovida de inteligência. Desta vez percebe-se o talento, a criatividade, a música! O mundo branco nunca havia sentido algo como o blues. Um negro, um violão e um canivete. Nasce na luta pela vida, nasce forte, nasce pungente. Pela real necessidade de existir! O que é ser bluesman? É ser o inverso do que os outros pensam. É ser contra corrente, ser a própria força, a sua própria raiz. É saber que nunca fomos uma reprodução automática da imagem submissa que foi criada por eles. Foda-se a imagem que vocês criaram. Não sou legível. Não sou entendível. Sou meu próprio deus; sou meu próprio santo; meu próprio poeta. Me olhe como uma tela preta, de um único pintor. Só eu posso fazer minha arte. Só eu posso me descrever. Vocês não têm esse direito. Não sou obrigado a ser o que vocês esperam! Somos muito mais! Se você não se enquadra ao que esperam… Você é um bluesman”.

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