Tudo Tanto: como a Charanga do França virou uma das principais forças do novo carnaval de rua de São Paulo
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Tudo Tanto: como a Charanga do França virou uma das principais forças do novo carnaval de rua de São Paulo

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Nascida no carnaval do conturbado ano de 2013, a Espetacular Charanga do França começou na manha, entre amigos, sem muito alarde, e aos poucos virou uma das principais forças do novo carnaval de rua de São Paulo. Liderado pelo saxofonista Thiago França, integrante do Metá Metá e um dos principais arranjadores da nova música brasileira, o bloco reúne dezenas de milhares de foliões toda segunda-feira de Carnaval em Santa Cecília, bairro na região central da cidade, mas não se limita apenas à folia momina — é um processo contínuo que dura o ano todo.

“Em outubro, quando ninguém quer saber de ‘Allah-La-Ô’, eu tava numa assembleia no Ministério Público batendo de frente com uns reaças que acham que o carnaval tem que acabar”, explica França. “A relação com o poder público também não é fácil e piorou muito depois que a gestão saiu da secretaria de cultura e foi para as prefeituras regionais, o carnaval passou a ser tratado como um evento e não como manifestação cultural e muita coisa acaba não tendo o devido cuidado e atenção. Esse contato direto com o funcionamento da cidade tem sido um grande aprendizado. Ao mesmo tempo, o bloco é um espaço pra debater vários temas como assédio, machismo, racismo e a gente procura estar bem ligado nisso, porque deixar passar batido também quer dizer alguma coisa, né?”.

Para celebrar o carnaval de 2019, o grupo lança o disco "Charanga na Conceição", um registro bruto do ensaio aberto que o grupo fez no último dia 27 de janeiro, em frente ao restaurante Conceição Discos, ponto de encontro do bloco. Entre as faixas, que podem ser baixadas de graça no site do líder do bloco, estão composições autorais que já dão o teor da festa e do tipo de som: “Hasta La Cumbia”, “Cumbia, Cumbia” e “Raggaxixe” dão uma ideia para onde se move a folia carnavalesca da Charanga, com doses fortes de latinidade. O disco ainda traz uma versão para o “Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, em referência ao prédio com o nome do compositor russo que fica em frente à Conceição Discos.

No meio de todo esse caos, entender também o lado humano, cada uma das pessoas que vem pra Charanga tem uma história, cada um está num processo, numa busca

“O bloco nasceu num post de Facebook. todo mundo falava pra eu fazer e eu devolvi a provocação: ‘E se eu fizer o bloco da Charanga, quem vem pra ajudar?’”, Thiago continua. “Duas horas depois já tinha gente se organizando para a confecção do estandarte, gente que eu nem conhecia se mobilizando para ajudar no que pudesse. A Talitha Barros, chef do Conceição Discos, foi e continua sendo figura essencial, o restaurante virou nossa área de produção e ela providencia rango, água e o goró da banda. Do outro lado, a Alice Coutinho, letrista, nascida no Recife numa família super carnavalesca, dona de um dos principais blocos da cidade, cuidou de toda a parte burocrática, inscrição, CET, PM, etc”, explica.

“A vontade de criar a Charanga veio em 2012, para o pré-carnaval de 2013, uma espécie de respiro em meio a tanto noise e experimentalismo do Metá Metá, Sambanzo e MarginalS”, lembra Thiago, falando de seus outros projetos musicais. “Ainda era uma época mais de carnaval em lugares fechados: fiz baile do Cartola Club, no Carioca, Club Homs e especialmente no Ó do Borogodó. Daí veio a ideia de fazer um pré-carnaval de salão, porque no carnaval mesmo eu já tinha outros trampos. Mas o que instigou mesmo foi o instrumento que apareceu na minha mão, um sax alto Conn, de quase cem anos, com um som incrível, o timbre muito próximo ao do Abel Ferreira, que é a minha grande referência de sax alto. Foi o instrumento que abriu o caminho, nele, esse repertório fazia muito sentido”.

A multidão veio logo na primeira vez em que o bloco ganhou as ruas, em 2015. “Na estreia da Charanga em 2013, no Centro Cultural Rio Verde, não deu 300 pessoas juntando o público das quatro quartas-feiras que a gente fez. Tocamos na Serralheria com uma média de 50 pessoas, meia casa; No pré-carnaval de 2014, no Puxadinho da Praça, tivemos boas noites, 60 pessoas já estrumbava a balada, mas teve uma chuva num dos dias que não foi ninguém, zero pessoas mesmo, e acabou virando ensaio”, Thiago puxa pela memória. “Nesse contexto, quando fomos inscrever o bloco no primeiro ano, rolou uma discussão acalorada sobre a previsão de pessoas, com o Romulo Fróes dizendo que iam 500 pessoas e eu chutando 300. A Alice falou 400 pessoas. Foram 1.500”.

“A Charanga virou referência no carnaval, ainda não tem outro bloco com características parecidas em São Paulo, totalmente acústico e com essa quantidade de instrumentos de sopro, a notícia espalhou rápido”, continua. “Esse ano, a banda sai com mais ou menos 100 músicos, sendo 70 de sopro. Além disso, a Charanga tem repertório autoral, tem umas versões inusitadas de pagode, Michael Jackson, Queen, funk e também as marchinhas clássicas. São cinco horas de bloco na rua, tem para todos os gostos”.

Mas Thiago também está alerta em relação à hipsterização do carnaval, que inevitavelmente passa pelo seu bloco. “Tudo está acontecendo muito rápido — como tudo em São Paulo — e é difícil administrar todas as demandas e entender todos os movimentos”, pondera. “O tempo inteiro eu ponho mil coisas na balança, se vale a pena fechar um patrocínio e vincular o bloco a alguma marca; onde tocar, em que circunstâncias; encontrar um meio termo entre a visão política-social do bloco e as demandas financeiras. No meio de todo esse caos, entender também o lado humano, cada uma das pessoas que vem pra Charanga tem uma história, cada um está num processo, numa busca. Equalizar tudo isso é um puta malabarismo, porque no fim, por mais que tenha um monte de iniciativa que não me emociona, eu prefiro a galera fazendo carnaval do que brigando contra ele”. 

As origens da Charanga estão próximas às raízes mineiras do músico. “‘Charanga’ é também fanfarra, bandas formadas por instrumentos de sopro e percussão, e que tocam na rua, acústico. A minha maior referência é a Charanga do Galo, que toca no estádio nos jogos do Atlético Mineiro — eu fui frequentador assíduo do Mineirão enquanto morava em Belo Horizonte. Não só pelo som, mas também pela atitude, a Charanga do Galo toca debaixo de sol e chuva, ganhando, perdendo, na primeira ou na segunda divisão”, lembra.

A vida da Charanga segue inclusive após o carnaval, quando o grupo se encontra para ensaios abertos, onde arregimenta novos músicos e fãs. “No primeiro ano teve um único ensaio, fechado, colou um monte de gente que eu não conhecia, mas todo mundo na instiga de fazer acontecer. No segundo ano rolou um ensaio aberto em frente ao Conceição. Do terceiro ano para cá a coisa se estruturou, a gente criou uma oficina de sopro que hoje é subsidiada pelo Proac, num formato de aula e ensaio aberto, de maio / junho até o carnaval”.

Pai desde o ano passado, Thiago aproveitou para mudar o horário do bloco para o dia — e garante que sua filha desfilará mais uma vez. “Esse já é o segundo ano da Eva, o primeiro ela tava na barriga, a Louise entrou em trabalho de parto três dias depois do bloco. E esse ano estreia a Charanguinha, dia 9 de março, 9h da manhã, em frente à Biblioteca Monteiro Lobato, com duas músicas compostas em parceria com a Alice Coutinho”. O trabalho continua durante 2019: “Durante o ano os ensaios acontecem no Mundo Pensante, e perto do carnaval a gente sai para a rua. Em maio recomeçam as oficinas de sopro. Passando o carnaval a banda continua ativa com o repertório autoral e estou pensando em mais um disco de inéditas não-carnavalesco”.

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