Tudo Tanto: Em ‘<atrás/além>’, O Terno abraça a MPB, sem perder a veia de banda de rock
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Tudo Tanto: Em ‘<atrás/além>’, O Terno abraça a MPB, sem perder a veia de banda de rock

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Como bons paulistanos, o trio O Terno trabalha sua carreira de forma minuciosa. Começou no início da década, fazendo clipes que chamaram atenção do público online ao mesmo tempo em que cultuavam uma sonoridade vintage que funcionava para além da internet. O humor autodepreciativo e a autoironia das letras do vocalista Tim Bernardes eram descendentes diretos do trabalho do pai do músico — o lendário Maurício Pereira —, mas aos poucos foram traçando seu próprio caminho.

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Primeiro O Terno se estabeleceu como uma banda de rock com fortes doses sessentistas, mas a psicodelia também era tratada de forma irônica, sem que o grupo embarcasse na tentação de soar clássico — ou, pior, forçadamente retrô —, mesmo fazendo shows que ecoavam Jimi Hendrix, Mutantes, Kinks, The Who e, claro, Beatles. O grupo lançou três discos, trocou de baterista e estabeleceu uma formação que contava com Guilherme D'Almeida, o Peixe, no baixo e Gabriel "Biel" Basile, na bateria, além do próprio Tim na guitarra e vocal. Juntos, os três passaram a fazer shows cada vez mais disputados nos festivais independentes brasileiros.

Lançaram três discos e, neste processo, a banda viu as letras começarem a soar mais existencialistas do que as crônicas do início da carreira. Além disso, viram esta reflexão desaguar em questões de relacionamento, refletindo os anseios e as tensões da geração nascida na virada do século, sua base de fãs

Mas aí Tim lançou seu álbum solo, “Recomeçar” — um dos grandes de 2017—, em que misturava estes dois temas num disco denso e classudo, que fora gravado com cordas e instrumentos vintage, mas que ao vivo era reproduzido com Tim sozinho no palco, alternando entre o piano e a guitarra enquanto emendava “Paralelas” de Belchior com “Changes” do Black Sabbath. Este espaço cavado por Tim, que ele mesmo rotulou ironicamente de “sofrência indie”, aproximava tanto seu disco solo quanto a fase mais recente d’O Terno (especificamente os discos de 2014, batizado apenas com o nome da banda, e de 2016, “Melhor do Que Parece”) para um lugar que está vazio desde o fim da década passada, quando o grupo Los Hermanos decidiu pendurar as chuteiras.

O grupo carioca, que tem uma carreira bem parecida com a d’O Terno embora pertença à geração anterior (e tenha conseguido chegar ao primeiro escalão do mainstream brasileiro graças a seu único hit de fato, a infame “Anna Júlia”), não conseguiu ultrapassar o salto do terceiro para o quarto disco. Ao abraçar uma fase madura, mais MPB que rock, o grupo acabou soando ainda mais caricato do que poderia e seu quarto disco plana entre o ótimo e o sonolento. O que poderia ser um novo momento para a banda carioca acabou sendo seu epitáfio não-dito, fazendo o grupo assumir um hiato criativo para voltar aos palcos de tempos em tempos como se fosse uma banda dos anos 1970 voltando à ativa depois de décadas sem se falar.

Ao lançar seu trabalho solo antes deste novo momento de sua banda, Tim Bernardes serviu como termômetro para o território que O Terno poderia seguir. E, até aqui, o quarto disco do grupo paulistano, “<atrás/além>”, que será lançado semana que vem, parece acertar exatamente no alvo que Tim cravou em “Recomeçar”. Agora em grupo, ele abraça a MPB, sem perder a veia de banda de rock. Os singles “Nada/Tudo”, “Pegando Leve” e “Volta e Meia” (este último com o herói indie Devendra Banhart cantando em espanhol, ao lado do japonês Shintaro Sakamoto) mostram um novo Terno, que não é estranho do anterior mas que parece prenunciar uma longa carreira por vir. E que este crescendo artístico possa ser traduzido em sucesso comercial — consolidando o grupo como o principal nome da nova cena de rock.

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