Tudo Tanto: Francisco El Hombre volta incendiário em seu segundo álbum, ‘Rasgacabeza’
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Tudo Tanto: Francisco El Hombre volta incendiário em seu segundo álbum, ‘Rasgacabeza’

“Esse disco veio da necessidade de entrar em erupção, de gritar, de responder ao desgaste emocional, ao desgaste físico, ao desespero, ao desânimo, com o maior choque de vida que a gente podia proporcionar”, me explica o baterista mexicano naturalizado brasileiro Sebastián Piracés-Ugarte, um dos dois irmãos fundadores da usina de som chamada Francisco El Hombre, que lança seu segundo disco, “Rasgacabeza”, nesta sexta-feira. “A gente encontrou isso na na figura do fogo. É uma sensação de gritar. A gente precisava de uma entidade que pudesse vir e abrir toda nossa cabeça, abrir tudo que a gente tem por dentro, sabe?”, continua explicando o título de seu segundo disco.

E “Rasgacabeza” é o que se propõe: incendiário. Sem tirar o dedo da tomada um só minuto, o quinteto mistura ritmos latino-americanos, música brasileira, reggaeton, dance music, big beat, hip-hop, música eletrônica, funk e música africana num rolo compressor mais próximo da pista de dança do que de um show de rock — e sempre aumentando a temperatura. “Aqui dentro tá quente e tá ficando mais”, canta o refrão da irresistível “Encaldeirando”, que ajuda a esquentar o clima num disco com canções que aquecem desde seus títulos (como “Chama Adrenalina” e “Manda Bala Fogo”) até refrões como os de “Chão Teto Parede”: “O chão tá pegando fogo, parede pegando fogo, o teto pegando fogo, palácio pegando fogo, milícia pegando fogo, igreja pegando fogo, o circo pegando fogo, tá tudo pegando fogo, a rua pegando fogo, museu tá pegando fogo, a praça pegando fogo, a massa pegando fogo, a pista pegando fogo!” O disco baixa o BPM em alguns momentos (como em “Parafuso Solto” e “O Tempo é Sua Morada”), mas nunca esfria.

O sucessor de “Soltasbruxa”, primeiro disco do grupo, de 2016, é resultado da vida na estrada da banda, que em cinco anos de carreira já fez quase 700 shows — “talvez até mais, já perdemos a conta”. “A gente é uma banda de estrada. A estrada não é uma meta, é um meio, é o que a gente vive desde que a gente começou a Francisco El Hombre”, segue explicando Sebastian, que compõe o grupo ao lado de seu irmão Mateo, Andrei Martinez Kozyreff, Juliana Strassacapa e Rafael Gomes. “Não existe Francisco El Hombre se a gente não está na estrada. Dos 365 dias do ano a gente passa 300 fora”, ri.

O artista é uma figura na sociedade que se mantém bebendo das fontes da sociedade, de ouvidos abertos, muito atento e muito sensível, e reinterpreta isso da sua própria forma com as suas próprias intenções

Por isso “Rasgacabeza” foi concebido em movimento. “Tem muitos ingredientes da estrada, uma caixa gravada em Santiago na Maquinita, guitarras captadas na casa de uma amiga em Goiânia... Todos os beats foram organizados na estrada, no avião, porque a gente não parou de fazer turnê para fazer esse disco”, continua o baterista. “Todo o trabalho bruto foi feito na minha sala e no quarto do Mateo. A gente decidiu produzir no nosso estúdio caseiro porque acredito que a gente nem sempre tem todas as cartas na manga, mas tem que fazer o melhor com as que tem. E das nossas limitações é que vêm as soluções criativas mais interessantes. Em vez de pegar um estúdio fodão com os melhores produtores, a gente decidiu botar a mão na massa e fazer o melhor que a gente tinha com o que a gente tinha. E também porque fica uma coisa única — não existe receita.”

O baterista continua sua terapia sobre como o disco acaba refletindo este momento no Brasil. “Ser artista é, por definição, trilhar o caminho do desconhecido. Porque não existe caminho certo, não existe meio certo de você atingir seus objetivos. Aliás, que objetivos são esses? O artista é uma figura na sociedade que se mantém bebendo das fontes da sociedade, de ouvidos abertos, muito atento e muito sensível, e reinterpreta isso da sua própria forma com as suas próprias intenções, o que traz muitas dificuldades.”

“Acho que em 2019, uma das dificuldades que a gente vai enfrentar é a financeira”, prossegue. “Será muito difícil se bancar da arte, mais do que já é. A gente tem que pensar em como encarar essa realidade de frente. E, pra mim, uma das melhores soluções, é a união. É a gente dar as mãos, saber que vai ser difícil, porém se a gente colocar as nossas cabeças no mesmo lugar, algo acontece. Acho que a nossa cena está precisando renascer. Está faltando fazer trabalho de base em nossa área. Sinto que, nos últimos anos, a gente seguiu caminhos muito individuais como banda e deixamos de construir histórias com nossos colegas, principalmente na cultura do rock. Porque no rap e no funk tem uma união muito foda, que me ensina muito.”

Isso vai ser construído colocando a banda de novo na estrada. O grupo formado na região de Barão Geraldo, em Campinas, começa uma turnê internacional indo fazer shows em Cuba a partir da terça-feira da semana. Depois, emenda uma passagem pelo México durante três semanas, até voltar para o Brasil. “Esse ano a gente vai tocar muito. Já tem três ou quatro turnês europeias previstas, já tem turnê por vários países latino-americanos, temos recebido muitas propostas em várias cidades do Brasil e queremos voltar para todas as cidades em que já tocamos!” A ideia é abalar as estruturas e fazer o circo pegar fogo por onde passarem. Afinal, eles não encerram o disco com a frase indignada “Isso não vai ficar assim! Eu te garanto!” à toa.

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