Tudo Tanto: Gang 90 celebra vida e obra de Julio Barroso
Especial

Tudo Tanto: Gang 90 celebra vida e obra de Julio Barroso

Mais de dez pessoas reunidas no mesmo palco para uma celebração poética de um dos nomes mais importantes da música brasileira na virada dos anos 1970 para os 1980. O show que o grupo Gang 90 faz neste sábado e domingo, 23 e 24 de fevereiro, no Teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, homenageia a vida e a obra do poeta, cantor, compositor, jornalista, DJ e fundador da banda Julio Barroso, morto há 35 anos. Importante agitador cultural de seu tempo, Julio fez a ponte entre a MPB de uma década com o pop da outra, misturando referências poéticas, sonoras e pop, ao mesmo tempo em que trazia novidades de todos os lugares do mundo para um país que ficou pelo menos uma década defasado em relação ao que acontecia no resto do planeta.

"É uma loucura absoluta, insana, mas precisava ser assim. E eu queria muita gente por perto, uma grande festa como sempre foi, caótica e errada", me conta a vocalista e tecladista Taciana Barros, fã de primeira hora que entrou no grupo logo após o lançamento do clássico "Essa Tal de Gang 90 e as Absurdettes", de 1983, quando ela tinha apenas 17 anos. "A gente vai mostrar o universo poético da Gang, esse lado do Julio vai ser representado pela minha irmã Natalia, que organizou um livro sobre ele, pelo Rodrigo (Carneiro, vocalista do grupo Mickey Junkies) e pelo Ian (Uviedo, poeta), lendo manifestos poéticos. São três guitarras, tem três pianistas contando comigo, o Edgard (Scandurra) toca guitarra uma hora e depois vai para a batera. É um laboratório que vai organizar tudo é a linha poética que a gente colocou no show".

A Gang era assim, eternamente transgressora e posso falar disso sem modéstia porque eu entrei depois. Eu já fui encantada pela Gang e pelo Julio antes de entrar na banda.

O livro que Taciana cita é "Wave – A nossa onda de amor não há quem corte", que sairá em edição artesanal pelo selo Demônio Negro e é organizado pela poeta Natalia Barros, trazendo poemas, textos e ilustrações inéditas de Júlio Barroso. Além disso, a publicação trará textos do livro “A Vida Sexual do Selvagem”, lançado pela editora Siciliano, em 1991, e da revista "Música do Planeta Terra", editada e lançada por Barroso em 1975, com escritos de Caetano Veloso, Luís Carlos Maciel e Jorge Mautner.

Taciana associa o fim da banda, após o lançamento do terceiro disco, "Pedra 90", de 1987, com sua experiência com a maternidade. "Passei por aquele furacão de coisas com a Gang desde os 17, quando completei 23 anos lançamos o último disco, aí nasceu o Daniel (Scandurra, filho da tecladista com o guitarrista do Ira!, Edgard) e eu quis parar. Foi justamente na mesma época em que o Edgard lançou o primeiro disco solo dele, 'Amigos Invisíveis' e eu comecei a tocar com ele. Depois veio meu disco solo, montei a banda Solana Star, mas a Gang terminou por causa da maternidade. São 30 anos dos 'Amigos Invisíveis' e 30 anos do último show da Gang", lembra Taciana.

Mas ela não vê a volta como mero saudosismo. "O som é incrivelmente contemporâneo. Eu lembro do choque cultural que foi ver a Gang no festival MPB Shell e as músicas permanecem modernas. Por isso escolhi bastante músicas do primeiro álbum porque é um disco muito forte. Era uma banda moderna e o moderno é eterno", continua a tecladista. "A Gang era assim, eternamente transgressora e posso falar disso sem modéstia porque eu entrei depois. Eu já fui encantada pela Gang e pelo Julio antes de entrar na banda".

"A banda que vai estar no palco é a formação original do segundo e do terceiro discos, com a exceção do (baterista) Gigante Brasil, que também faleceu. No lugar dele, entrou a Tamima Brasil, que tocava com a Cássia Eller", diz ela. Além das duas, a banda ainda conta com Paulo Lepetit, no baixo, Gilvan Gomes, na guitarra e Beto Firmino, nos teclados e vocais, além de vários convidados. O guitarrista da Nação Zumbi Lucio Maia, Bianca Jhordão e Elô Paixão nos vocais, o cantor e compositor Filipe Catto, além dos já citados Scandurra, Natalia, Carneiro e Uviedo. "A gente também está trazendo o Herman Torres, que cantava 'Nosso Louco Amor', que foi super importante no primeiro álbum. É a primeira vez que junta tanta gente de todas as formações da Gang ao mesmo tempo", comemora Taciana, que também antecipa que terá música nova, "Quero Sonhar Com Você", parceria dela com Lepetit.

Pergunto se a volta tem a ver com o momento em que o Brasil atravessa, análogo ao que viu o grupo nascer, no final da ditadura militar dos anos 1970. "Todo mundo me pergunta por que voltar agora, tem um pouco de saudade, um pouco de mostrar essa história de novo, tanto pra gente mesmo resgatar quanto para a nova geração", pensa Taciana. "Mas acho que você matou a charada, porque agora tem mais a ver. Vivemos uma época careta, o mundo tá careta — mas também libertário por um lado, então um pouco como era a Gang na época da ditadura. Precisamos um pouco da violência da poesia, mais do que qualquer coisa. Precisamos de música e poesia pra sobreviver à caretice e nada melhor do que as palavras do Julio nessa hora”.

Tags relacionadas:
EspecialTudo TantoMPB

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest