Tudo Tanto: Guizado se aventura no mundo da canção em ‘O Multiverso em Colapso’
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Tudo Tanto: Guizado se aventura no mundo da canção em ‘O Multiverso em Colapso’

Lembro da primeira vez que vi um show do trompetista Guilherme Mendonça, alternando suas primeiras músicas entre seu instrumento e bases eletrônicas ao lado de feras como Curumin (na bateria) e dois cidadãos instigados (Régis Damasceno, na guitarra, e Rian Baptista, no baixo), por volta de 2006. Foi o próprio Curumin quem me avisou: o show acontecia na festa Frankáfrika, no falecido Sarajevo, inferninho da época em que a Rua Augusta, em São Paulo, ainda tinha uma aura de periculosidade.

Ali já dava pra ver que Guizado voaria longe. À época ele já tinha uma reputação como músico, tocando ao lado de Lucas Santtana, da banda Donazica e do próprio Curumin, mas aos poucos foi trilhando um caminho que parece concluir em seu mais novo disco. Entre “Punx”, “Calavera”, “O Voo do Dragão” e “Guizadorbital”, o músico foi ganhando confiança e arregimentando forças para que seu recém-lançado “O Multiverso em Colapso”, que será lançado nesta sexta-feira, no Sesc Pompeia, pudesse se tornar seu disco mais ousado.

Guizado usa a voz como um instrumento, uma textura. Ao mesmo tempo em que passa mensagens, reconstruindo-se como um personagem menos quieto e taciturno que sua antiga persona, expondo-se e correndo mais riscos

Coproduzido por Guizado e pelo saudoso Miranda, em um de seus últimos trabalhos, “Multiverso...” sintoniza-se num ponto em comum das duas fortes personalidades — os anos 1980. Eles embarcam numa mistura de cyberpunk com videogame retrô, quadrinhos apocalípticos e distopias eletrônicas cuja sonoridade foge completamente do jazz fusion e do pop plástico que predominava naquele período. Contando com uma banda da pesada (o mesmo Régis em uma guitarra, Allen Alencar na outra, Meno Del Picchia no baixo, Richard Ribeiro na bateria e Zé Ruivo nos teclados), Gui nos chama para um delírio de psicodelia digital que soa retrô mas nunca deixa de soar orgânico.

Mas a principal transformação de “Multiverso...” é a descoberta das canções com vocal. Ainda são experimentos, mas elas já soam firmes para incursões iniciais. Guizado já vinha testando essas possibilidades, mas nunca de forma tão dedicada quanto neste novo disco. E embora algumas faixas ainda soem duras e travadas, fazendo os vocais destoarem da fluidez da base instrumental (“Berro Melado”, “Coração Caverna” e “Sonho Delírio”), outras mostram-se prontas, como “Modern Fears” e “Tengo Piel” — estas duas cantadas pelo casal Negro Leo e Ava Rocha, cada um em sua respectiva faixa. Os dois são apenas alguns dos convidados por Guizado para o disco, que ainda reuniu Thiago França, Rômulo Froes, Sandra Coutinho (das Mercenárias), Lucas Santtana e Andrea Merkel.

Guizado usa a voz como um instrumento, uma textura. Ao mesmo tempo, não perder a oportunidade de passar mensagens, reconstruindo-se como um personagem menos quieto e taciturno que sua antiga persona, expondo-se e correndo mais riscos. É o fim de mais um capítulo em sua discografia que pode tirá-lo de vez do nicho instrumental — mas isso só o tempo dirá.

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