Tudo Tanto: Jards Macalé renasce com as ‘Trevas’ para lançar o primeiro disco de inéditas em 20 anos
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Tudo Tanto: Jards Macalé renasce com as ‘Trevas’ para lançar o primeiro disco de inéditas em 20 anos

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“Chegamos ao limite da água mais funda, levanta o olhar pro céu”, canta Jards Macalé, 75 anos, com a boca submergindo como se estivesse se afogando, seu canto gravado com o rosto sobre uma bacia, balbuciando os versos enquanto afunda a voz na água. Assim é o ápice de “Trevas”, primeiro single do novo trabalho do velho bardo carioca, lançado nesta sexta-feira e construído a partir do “Canto I” de Ezra Pound, traduzido por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. “Trevas é sobre o Brasil do futuro. Chegamos ao poço mais fundo, chegamos ao limite, chegamos ao Brasil de 2019”, ele comenta sobre a faixa, que funciona como aperitivo para o 16º álbum de sua carreira, o primeiro com inéditas em 20 anos. Produzido por Kiko Dinucci e Thomas Harres, e com direção artística de Romulo Fróes, o disco será lançado no mês que vem, é o primeiro álbum de Jards desde 2011 — e quase não existiu. 

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Isso porque Jards passou por maus bocados no ano passado, quando, devido a complicações pulmonares, ficou internado por dias, inconsciente com risco de morte — no meio do processo de realização do disco, cujo título ainda não foi divulgado. “Ele reaprendeu a andar, a falar, a cantar, a tocar violão, renasceu das cinzas mesmo”, conta o guitarrista Kiko Dinucci, que além de produzir o álbum também compôs músicas com o mestre, além de tocar samples e synths.

No disco, Jards vem cercado de feras da nova geração paulistana e compôs ao lado de Tim Bernardes, Ava Rocha, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Clima, além de gravar com Juçara Marçal, Luê, Gui Held e Pedro Dantas (estes dois últimos, guitarrista e baixista, formam a banda base do disco ao lado do produtor baterista Thomas Harres). Antes do lançamento do álbum, ele ainda solta mais uma inédita, o samba-canção “Buraco da Consolação”, parceria e dueto de Tim Bernardes com arranjos feitos por Thiago França.

Jards é um dos compositores mais importantes da música brasileira moderna — e um dos mais indóceis. Autor de clássicos do cancioneiro nacional como “Vapor Barato”, “Só Morto”, “Gotham City”, “Anjo Exterminado” e “Mal Secreto”, ele foi parceiro de Waly Salomão, Capinam, Torquato Neto, Naná Vasconcelos e Jorge Mautner, além de ser gravado por artistas tão diferentes quanto Gal Costa, Maria Bethânia, Clara Nunes e Camisa de Vênus. De alma noturna e timbre grave, Macalé é um sambista subversivo, anti-herói da própria biografia que agora vem celebrado pela mesma turma que transformou Elza Soares na Mulher do Fim do Mundo.

O título do disco vem guardado a sete chaves, mas traduz sua arte selvagem e sonhadora, apocalíptica e insurgente, perfeita para estes tempos sombrios que se avizinham. “Ele é um jovem”, resume Kiko. “Parece que tem 17 anos, brinca, é aloprado pra caramba, fala besteira, tem aquele lado mais loucaço, que às vezes ele tá gostando de algo, às vezes odeia. E ao mesmo tempo é totalmente integrado ao que acontece hoje. O vejo como um menino rebelde, enfant terrible, um garoto malvado”.

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