Tudo Tanto: Livro lista 100 clássicos perdidos da música brasileira dos anos 1970 e 1980
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Tudo Tanto: Livro lista 100 clássicos perdidos da música brasileira dos anos 1970 e 1980

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Se você tem algum amigo que gosta de ler sobre música ou quer usar o Natal como desculpa para se presentear com um bom livro, minha dica é o segundo volume de “Lindo Sonho Delirante”. Depois de reunir 100 álbuns psicodélicos brasileiros gravados entre 1966 e 1975, agora parte para um conceito mais amplo, reunindo mais uma centena de discos, desta vez “audaciosos” em vez de “psicodélicos”, lançados entre 1976 e 1985.  Mais que um livro, este “LSD” é um convite para viagens específicas na música brasileira, contando histórias heroicas ou inacreditáveis de artistas que se entregaram a visões específicas de como desbravar as fronteiras da música.

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O livro é o terceiro grande projeto do jornalista independente Bento Araújo, que começou sua revista impressa “Poeira Zine” no início do século para depois se arriscar no primeiro volume de “Lindo Sonho Delirante”, que agora chega ao segundo tomo. Para ele, o maior desafio desta nova edição foi “convencer aquela parte mais conservadora e nostálgica do público de que o Brasil também produziu música boa e transgressora na década de 1980”, explica. “Muitos colecionadores de discos consomem apenas o que foi produzido no período de 1966 até 1976 e tem preconceito com o que foi criado no final dos anos 1970 e nos anos 1980. Uma grande parte do público que aprecia rock psicodélico e progressivo, por exemplo, alega que esses gêneros foram produtivos apenas nos anos 1960 e início dos 1970, o que não é verdade”.

“Neste segundo volume de ‘Lindo Sonho Delirante’, eu optei por resenhar 100 discos que chamei de ‘audaciosos’. Então tem um pouco de prog, folk, fusion, música experimental, Vanguarda Paulistana e também psicodelia, é claro”, continua o autor. “Dos discos psicodélicos dessa fase, considero como marco inicial o ‘Flaviola e o Bando do Sol’ (1976), e como marco final, ‘O Mistério dos Quintais’ (1983) do Quintal de Clorofila. Sem deixar de lembrar os belíssimos discos de Marinho Castellar e Ricardo Uchôa, ambos lançados em 1981”.

Bilíngue, o livro pede para ser folheado e lido de forma aleatória, em vez de seguir a ordem cronológica e alfabética sugerida pelo autor. É abrir em qualquer página para um curto mergulho em uma mitologia completamente nova, presa em um registro fonográfico. Alguns casos são conhecidos e reconhecidos — “Orós”, de Fagner, o primeiro do A Cor do Som, “O Filho de José e Maria” de Odair José, “Beleléu” de Itamar Assumpção, “Slave Mass”, de Hermeto Paschoal, “Mudança de Tempo”, do Terço, “Alucinação”, de Belchior, o “Estudando o Samba”, de Tom Zé, “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé e “Imyra Tayra Ipy Taiguara”, de Taiguara. Outros — Bixo da Seda, Pholhas, Recordando o Vale das Maçãs — são menos conhecidos, enquanto alguns (Raposa Velha, Pão com Manteiga, Terreno Baldio, Flor de Cactus) são virtuais anônimos para o grande público. E cada pequeno texto sobre cada disco instiga procurá-lo para ouvir na hora — uma comodidade que a era digital permite através de seu acervo em streaming. Embora alguns nomes sejam difíceis de encontrar mesmo no YouTube, mas não são discos caros.

Sou um entusiasta de discos de R$ 1 a R$ 5. É importante sair um pouco do universo fetichista dos colecionadores milionários que acreditam que se é raro é bom

“Descobri também que é possível escrever um livro falando de alguns discos que continuam baratos nos sebos, pois a galera ainda não se ligou que artisticamente, e em seu devido contexto, aquilo é ouro”, continua Bento. “Sou um entusiasta de discos de R$ 1 a R$ 5. É importante sair um pouco do universo fetichista dos colecionadores milionários que acreditam que se é raro é bom”.

Nesta pesquisa, ele foi surpreendido por discos como “Um Grito de Guerra” de Pedrinho Sampaio, “Memória das Águas” de Fernando Falcão, “Magamaquiavérica em Canturbano” de Letícia Garcia e o LP homônimo da banda Raposa Velha: “Adoro descobrir algumas dessas pérolas conversando com amigos colecionadores, tanto do Brasil como da Europa e do Japão”, conta, lembrando que também descobriu uma cena experimental minimalista que é reconhecida lá fora mas que não encontra eco no Brasil. “Discos independentes do início dos anos 1980, que estão sendo relançados no exterior, como o LP de 1984 da dupla Chico Mello e Helinho Brandão”, explica.


O vínculo de colecionador de discos o fez passear com o novo livro em uma turnê de divulgação pela Europa. “Foi intenso! Visitei cinco países em três semanas, apresentando palestras sobre a minha pesquisa, tarde de autógrafos, sessões de bate-papo e DJ sets. Foi interessante levar para a Europa essa experiência tropicalista, lisérgica e talvez até subversiva, pois falei de música psicodélica, contracultura, drogas, censura e repressão militar na cena musical brasileira dos anos 1960,1970 e 1980. Na Inglaterra, cheguei a ganhar uma coleção de LPs brasileiros de presente”.

O sucesso dos dois volumes de “Lindo Sonho Delirante”, que foram bancados pelo público através de financiamento coletivo, é decorrente dos fãs que Bento reuniu ao redor de seu fanzine impresso. “Acredito que a comunidade que criei com os 13 anos de ‘Poeira Zine’ fez o livro acontecer, principalmente o primeiro. Como o livro foi lançado também em inglês, essa comunidade de leitores se expandiu pelo mundo. A campanha de financiamento do segundo volume superou a do primeiro e certamente foi uma consequência disso”.

“É como se o projeto ‘Lindo Sonho Delirante’ fosse uma continuação natural do ‘Poeira Zine’”, continua. “Tem material que está no livro que comecei a pesquisar há 15 anos, junto com o fanzine. As similaridades são a paixão, a entrega ao projeto e o espírito ‘faça você mesmo’. Pode ser um livro bonitinho, colorido, papel couchê, mas a atitude continua a de um fanzine punk”.

Ele é crítico com o momento do jornalismo brasileiro de cultura atual. “Acho importante a garotada que deseja escrever sobre música sacar que aquele estilo gonzo, old school, de ficar ganhando discos, ingressos e viagens ficou para trás. Pode ser romântico e tal, tem seu charme, mas não dá para viver disso. Tem que ser guerreiro, meter a mão na massa e fazer também a parte chata da coisa, a parte burocrática. Fazer tudo no ‘Poeira Zine’, textos, diagramação, distribuição, e também a parte comercial, me deu uma visão bacana do que é ser um jornalista independente. Passei um bom tempo fazendo freelancer para jornais e revistas, mas a minha própria publicação sempre foi a prioridade. Acho que com as redes sociais e principalmente com a ferramenta do crowdfunding, o jornalismo musical no Brasil tem tudo para ser mais forte e independente do que nunca”.

Mas apesar de olhar para o passado, Bento não perde os olhos do que acontece hoje em dia. “Acho a produção atual fantástica. Chega essa época e eu fico desesperado para escutar os discos lançados durante o ano. No Brasil, o Nordeste e o Norte vêm surpreendendo como nos últimos anos. Lá fora, não dá para se isentar do novo jazz britânico e da atual cena japonesa com Kikagako Moyo, Toshio Matsuura, Yuzo Iwata etc”. E ele já cogita o terceiro volume de seu livro para daqui a dois anos. Os dois volumes do “LSD” e as edições do ‘Poeira Zine’ podem ser compradas no site da publicação.

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