Tudo Tanto: Lojas de vinil relançam clássicos da música brasileira
Especial

Tudo Tanto: Lojas de vinil relançam clássicos da música brasileira

0

Publicidade

A volta do vinil, que deixou de ser um modismo para se tornar uma renascença, está transformando hábitos de consumo e a forma como ouvintes da era digital conversam com a música. Para muito além do hype do hipster que entra num sebo de discos pedindo clássicos da MPB para decorar as paredes de seu loft. Ao mesmo tempo em que consolida uma nova geração de lojistas e consumidores, também esconde uma uma revolução silenciosa em andamento: o relançamento de clássicos, raridades e até material inédito de música brasileira graças justamente a novas lojas de disco que aos poucos se transformam em selos.

HYPE: É oficial, o vinil é o novo preto 

HUMINUTINHO: A história do vinil, um senhor de 70 anos 

O exemplo mais recente é o relançamento do único disco do cantor, compositor, músico e arranjador Amado Maita, que gravou este trabalho homônimo com amigos, em poucas horas, que está sendo relançado pela primeira vez pela loja Patuá Discos, na Vila Madalena, em São Paulo. Equilibrando-se entre o jazz transcendental e a sofisticação do samba, ele conduziu amigos músicos de primeira grandeza com sua voz grave e macia num álbum lançado pela gravadora Copacabana. Isso tudo no magistral 1972, ano mágico da música brasileira, de clássicos como o “Clube da Esquina” de Milton Nascimento e Lô Borges, o “Transa” de Caetano Veloso, o “Acabou Chorare” dos Novos Baianos, “Expresso 2222” de Gilberto Gil, “A Dança da Solidão” de Paulinho da Viola, “Pérola Negra” de Luiz Melodia, “Ben” de Jorge Ben e “Elis” de Elis Regina, entre outros.

"1972 foi um momento em que muita gente estava fazendo discos que ficaram à frente de seu tempo, que demoraram pra ser entendidos, como o Arthur Verocai, o José Mauro... Existia uma liberdade de gravação e ao mesmo tempo uma falta de entendimento artístico em relação a músicas mais elaboradas”, explica o DJ Paulão, um dos sócios da Patuá. “O disco do Amado foi feito em pouco tempo, com amigos, grandes músicos, que eram pessoas mais próximas dele, o que dá um valor ainda mais alto. Um disco tão raro e tão caro precisa estar de volta e ajude o Amado Maita a ser encontrado na história da música popular brasileira". A reedição do disco de Maita tem uma tiragem de 1500 exemplares, 500 a mais que a prensagem original, mais um motivo para tornar o disco tão raro.

Capa do primeiro e único disco de Amado Maita / Divulgação
Capa do primeiro e único disco de Amado Maita / Divulgação

Felizmente, o reencontro com o único disco do pai da cantora Luísa Maita, que faleceu em 2005, não é um relançamento solitário. Várias outras lojas de discos brasileiras já enveredaram pelo caminho da produção e lançamento de seus próprios vinis — na maioria dos casos, lançamentos em vinil de discos recentes que só saíram em CD ou, pior, apenas no formato digital. Mas há uma forte tendência a resgatar o passado a partir destes relançamentos. Estas lojas, em sua maioria paulistanas, vêm ajudando um novo público a conhecer artistas que não estão mais na linha de frente e podem ser esquecidos caso trabalhos como este não aconteçam.

São discos de toda espécie. A Fatiado Discos, no Sumaré, relançou o mítico “Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais MCs em edição luxuosa limitada, e o então único disco do mestre soul Di Melo, que ajudou a resgatar sua carreira, voltando a fazer shows. A Nada Nada Discos, ligada à loja Sub, no Centro, resgatou clássicos do punk nacional, como Olho Seco, Inocentes, Lixomania, as coletâneas “Sub” e “O Começo do Fim do Mundo”, além de ter lançado uma caixa sensacional de material inédito das Mercenárias (e de estar preparando outra com material inédito do grupo Fellini). A mesma Nada Nada tem um braço dedicado a relançamento de discos mais recentes, dos anos 1990 ou do começo do século, chamado Anda Anda, que já lançou as bandas Hurtmold e Garage Fuzz, além de começar uma divisão chamada Nada que vai relançar o clássico psicodélico “Persona/Som”, de 1975. 

Outros relançamentos feitos por lojas incluem o primeiro disco dos Mickey Junkies, “Stoned”, que só havia sido lançado em CD, fabricado pela loja digital Anomalia; o primeiro do cantor e compositor paulistano Rômulo Fróes, “Calado”, que virou LP graças à loja Locomotiva, e o disco “Um Futuro Inteiro”, primeiro disco solo do cantor e compositor psicodélico Pedro Bonifrate, virou vinil graças à loja brasiliense Dom Pedro Discos — e a lista continua...

São lançamentos que começam a suprir lacunas em nossa cultura a partir de esforços hercúleos de lojistas apaixonados por música, mas que, principalmente, reforçam a importância de obras que poderiam se perder no tempo se não fossem estas iniciativas ímpares. Mas não é a primeira vez que isso acontece e todos estes novos lojistas reconhecem o pioneirismo de lojas dos anos 1980, como Baratos Afins (que relançou os discos dos Mutantes) e Wop Bop (que lançou a coletânea “Censurar Ninguém Se Atreve”, reunindo clássicos do rock nacional pré-Jovem Guarda). Torcemos para que esta tradição se mantenha e que mais discos brasileiros redescubram novos ouvintes — mesmo porque esta novidade não diz respeito apenas às lojas, mas também a selos especializados em reedições, mas isso é assunto para um outro dia...

Publicidade

Tags relacionadas:
EspecialTudo TantoVinil
Background

Relacionados

Canais Especiais