Tudo Tanto: Mostra Cantautores, de Belo Horizonte, redesenha o cânone da música brasileira
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Tudo Tanto: Mostra Cantautores, de Belo Horizonte, redesenha o cânone da música brasileira

Criado nos anos 1960 e difundido a partir da década seguinte, o termo MPB ajuda o público ouvinte a identificar um tipo de artista ligado a uma sonoridade específica (quase sempre herdeira da bossa nova), mas ao mesmo tempo engessa uma produção musical que se vê obrigada a se encaixar em moldes pré-estabelecidos. O século XXI passou a questionar o gênero não apenas como um conjunto de regras que um artista que quer falar com um público adulto deve seguir, mas também como uma espécie de capitania hereditária em que herdeiros e amigos dos primeiros protagonistas conseguem mais destaque e proeminência.

Há, inevitavelmente, a influência das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, cuja força política e econômica forçaram a produção cultural do resto do país passar pelo crivo deste polo, obrigando artistas de outras cidades a passarem pelas duas pontas da Via Dutra para conseguir se estabelecer nacionalmente.

Havia uma força muito grande no formato, uma força oculta ignorada pelo grande mercado dos eventos de entretenimento, que é mais ligado à festa, à bebedeira, ao baile, e não coloca a música em primeiro plano

A internet e as novas tecnologias digitais vêm mexendo na produção e na divulgação desta produção, criando cenas literalmente independentes dos critérios de aprovação do velho eixo. Da cena autossuficiente de Belém a do Recife, reconstruída a partir do fim do mangue beat, passando pelo novo sertanejo e por festivais que se espalham por todo o Brasil, há inúmeros exemplos de movimentações culturais que sobrevivem sem precisar passar pelo até então impávido eixo central da cultura brasileira.

E um dos principais focos desta nova ordem vai de encontro ao barulho e excitação que movimentam boa parte das produções musicais brasileiras. Sutil e delicada, a Mostra Cantautores de Belo Horizonte encara o público de forma adulta e sofisticada ao oferecer shows em teatros em vez de casas noturnas e lança ao artista o desafio de encarar o palco sozinho. O termo “cantautor” desafia, inclusive, o próprio rótulo de MPB, uma vez que expande seus domínios para além do cânone pós-bossa nova. O centro, sempre, é a canção.

O músico Luiz Gabriel Lopes, um dos criadores da Mostra, lembra das origens do evento, em 2011, quando, numa discussão com outra artista, Jennifer Souza, perceberam haver uma lacuna no mercado para o tipo de música que faziam. E pensaram num “evento que reunisse condições ritualísticas, acústicas e conceituais que priorizassem a escuta, para que este formato, do autor sozinho no palco apresentando suas canções, pudesse acontecer de forma confortável e fluida, tanto pro artista quanto pro público”, lembra Lopes.

A primeira edição foi um sucesso . “Todas as sessões esgotadas, um burburinho muito emocionado”, diz ele. “Havia uma força muito grande no formato, uma força oculta ignorada pelo grande mercado dos eventos de entretenimento, que é mais ligado à festa, à bebedeira, ao baile, e não coloca a música em primeiro plano”.

De lá pra cá, o evento cresceu e se tornou referência, a ponto de sua sétima edição, que acontece desde o fim de semana passado e termina neste próximo reunir nomes de peso como Joyce, João Bosco, Ângela Ro-Rô, Zelia Duncan, Cátia de França e Jards Macalé, além de vários outros artistas em diferentes estágios de suas carreiras — todos, cada um à sua maneira, desafiando o clichê engessado que se tornou a MPB neste novo século.

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