Tudo Tanto: O momento do rap no Brasil
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Tudo Tanto: O momento do rap no Brasil

Num ano cheio de más notícias, o rap brasileiro está longe de ser uma de suas fontes. Se pararmos para analisar a nova geração, 2018 começou com o mineiro Djonga lançando o incisivo “O Menino Que Queria Ser Deus”; essa semana viu o lançamento do impressionante “Gigantes”, do carioca BK’; e o baiano Baco Exu do Blues está prestes a lançar o sucessor de seu aclamado disco de estreia, “Esú”.

Se juntarmos isso ao protagonismo histórico assumido por dois mestres do gênero que ainda estão na ativa, mas longe da discussão pública (Mano Brown e Marcelo D2, os maiores nomes do hip-hop paulistano e carioca, respectivamente), vemos que o momento do gênero no país hoje é parecido com o vivido pela dita MPB quando o rock brasileiro virou comercial na década de 1980, ou da geração de artistas pós-Los Hermanos, atropelada pelo funk no início deste século.

Daí a importância do festival Sons da Rua, que reúne parte da elite do rap nacional neste sábado, dia 3 de novembro, no estádio do Corinthians, em São Paulo, com shows de Mano Brown, Emicida, Rincon Sapiência, Djonga e a novata Alt.Niss, com apresentação feita pelo pioneiro do gênero no país, o rapper Thaíde.

Cada um desses artistas representa um degrau na história do rap brasileiro: Brown obviamente é o pilar central, a voz dos Racionais MCs que injetou auto-estima de forma brutal ajudando lentamente o prumo do foco da cultura no Brasil deixar de ser o Rio de Janeiro em direção a São Paulo. Emicida é o maior nome da geração seguinte, do rap underground, nascido em batalhas de rimas no início da década passada. Rincon Sapiência, contemporâneo de Emicida, veio construindo sua carreira com mais paciência e lançou-se em disco há dois anos, com um dos melhores álbuns da década. Djonga e Alt.Niss representam a nova geração — o mineiro já consolidado como um dos principais nomes da nova cena (e acenando bonito para o funk), e a paulistana representando a nova visibilidade feminina dessa mesma cena (além da aproximação bem-vinda com o R&B).

Mal comparando, é como se pudéssemos ver, no meio dos anos 1980, um festival com João Gilberto, Chico Buarque, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Elba Ramalho apresentado por Nelson Motta, ou um evento no fim do século passado com Rita Lee, Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Pitty e Los Hermanos, apresentado pelo MauVal. Estes festivais fictícios não aconteceram (e outros tantos podiam ser sugeridos — um de samba, outro de soul brasileiro, mais um de música caipira, outro de música baiana), mas este reconhecimento, sim. É quando o gênero se consolida como mais do que uma cena e dá origem a um cânone.

E este momento não é específico desse festival. É um movimento que vem se repetindo em diferentes situações: programas de TV, playlists em aplicativos de streaming, programações de rádio, participações em shows, repertórios revisitados. Trinta e tantos anos depois dos primeiros rascunhos do gênero no país, o rap nacional se orgulha de ser o gênero que se tornou. Agora é a hora de tomar o seu lugar de destaque e assumir o papel de música popular brasileira deste século ao lado do cada vez mais onipresente funk (talvez o único fator de identificação nacional deste século, ame ou odeie) e desta mutação híbrida que virou o sertanejo atual.

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