Tudo Tanto: Qual é o problema das pessoas com os Los Hermanos?
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Tudo Tanto: Qual é o problema das pessoas com os Los Hermanos?

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Aconteceu de novo: o grupo Los Hermanos saiu do interminável hiato criativo que não pariu nenhum novo disco desde o lançamento de seu quarto álbum (“4”), há treze anos, e anunciou que mais uma vez excursionará pelo Brasil em uma turnê que passa por nove capitais entre abril e maio de 2019. E, mais uma vez, além da esperada comoção da geração de fãs que cresceu ouvindo a banda — e nunca os abandonará — vem a ruidosa tempestade de desafetos, sempre amplificada pelo pedal de distorção de realidade das redes sociais.

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Por que essa banda desperta tanta ira? Por que quem não gosta do grupo se sente tão incomodado a ponto de se importar tanto? E por que precisa tornar pública sua indignação? Não seria melhor apenas ignorá-los? 

Há uma raiva recolhida em relação aos Los Hermanos que vai além do encontro físico do punho do falecido Chorão com o rosto de Marcelo Camelo. Isso desde antes do sucesso de verdade, quando a banda ainda era uma aposta da cena underground carioca e usava o rótulo “romanticore” para tentar explicar sua sonoridade. Sempre houve alguém resmungando contra o fato de eles serem da PUC ou sobre a sensibilidade à flor da pele das letras do grupo ou sobre o fato de eles terem feito sucesso. Ainda havia os que odiavam “Anna Júlia”, os que acharam que o grupo esmoreceu a partir do segundo álbum (“Bloco do Eu Sozinho”) e os que não suportam a vagarosidade do quarto disco. A aura MPB, o fato de Camelo ter namorado (depois casado e ter tido uma filha) com Mallu Magalhães, a atmosfera meio circense, meio carnavalesca que se mistura com as músicas do disco, o fato de serem indies, a vibe cigana de Rodrigo Amarante… Tudo é motivo para pichar o grupo. 

Custaria simplesmente ignorá-los? Deixá-los passar seu chapéu para fãs que querem dar dinheiro para compartilhar a experiência proporcionada pelo grupo?

(Tudo bem que eles não ajudam. Não dão entrevistas e não compõem nada há mais de uma década, fazendo turnês que, se por um lado, alimentam a esperança e a nostalgia dos fãs, por outro, tornam evidente que o modelo de negócios de seu trabalho pressupõe shows que apenas pagam as contas para que eles fiquem anos sem fazer mais nada como grupo e apenas toquem seus projetos paralelos).

Essa animosidade, que pega no pé do populismo, da afetação e do sentimentalismo do grupo, é filha de outro rancor guardado há anos: a raiva contra o Legião Urbana. Exatamente como os Los Hermanos, o grupo de Brasília despertava paixões tanto lá quanto cá e cada multidão que se eriçava sobre novos discos ou novos projetos com a marca de Renato Russo e companhia (que, de certa forma, continua em atividade mesmo mais de vinte anos após a morte de seu único criador), outra surgia para vaiar, falar mal e lamentar a existência deles. Raul Seixas é outro ícone do rock brasileiro que também sofre com isso décadas após sua morte. 

E isso num país que tem tanta música boa quanto música ruim — sem lembrar que estes critérios, mais do que nunca, são basicamente subjetivos. Bom, ruim: são apenas pontos de vista.

Custaria simplesmente ignorá-los? Deixá-los passar seu chapéu para fãs que querem dar dinheiro para compartilhar a experiência proporcionada pelo grupo? Cada novo desabafo reclamão, cada novo resmungo mal-humorado, cada post que execra o fato de o grupo ter conseguido fazer sucesso sem precisar sem empurrado goela abaixo pelas diferentes máquinas de mídia que poluem nosso horizonte imaginário, apenas alimenta a reputação do LH, consolidada com o cimento do rancor alheio. Já vimos o estrago que isso pode fazer em nossas vidas.

Meu único lamento em relação aos Los Hermanos diz respeito à ausência de novas composições. Se lançassem um novo disco a cada novo reencontro talvez pudessem construir uma discografia que conversasse com a maturidade de seus trabalhos solo e inspirasse ainda mais fãs e novos artistas como fizeram quando eram uma banda de fato. Caso contrário, vão seguir apenas sendo uma máquina de nostalgia que serve apenas para sazonalmente ganhar uma grana. Nenhum há problema nisso — a não ser o esvaziamento artístico a longo prazo. 

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