Tudo Tanto: Soledad coleciona referências em ‘Revoada’
Especial

Tudo Tanto: Soledad coleciona referências em ‘Revoada’

0

Publicidade

“A praia de Iracema, lá em fortaleza. São Paulo. O movimento ‘pessoal do ceará’. Michelle Gurevich, uma cantora canadense com rolês russos. O samba de raiz, o brega. A Selda Bagcan,  cantora e ativista política turca. O filme ‘Salut Les Cubains’ de Agnès Varda, alguns poemas que li da Ana Cristina César. O livro ‘O Calibã e a Bruxa’. Fotografias da Lola Álvarez e do Man Ray. Ai, tanta coisa…”.   A cantora cearense Soledad dispara a enumerar referências e inspirações para seu segundo álbum, “Revoada”, que lança no próximo mês – e que começa a trabalhar a partir desta semana, quando lança no Reverb em primeira mão o clipe do primeiro single, “Por Amor”, composição inédita do produtor do disco, o guitarrista Fernando Catatau, do Cidadão Instigado.  

LEIA MAIS: Maglore colhe os louros dos 10 anos de carreira

TUDO TANTO: Francisco El Hombre volta incendiário em seu segundo álbum, ‘Rasgacabeza’


“Sempre tive um desejo de trabalhar com Fernando, desde a minha adolescência, quando ia para os shows do Cidadão escondida e nem sabia que seria cantora”, lembra Soledad. “Antes de o processo começar, o chamei para fazer a produção e ele se fez presente desde a escolhas das canções até a escolha do nome, um aprendizado gigante pra mim. Nessas, ele me apresentou ‘Por Amor’, uma composição sua. Subitamente me vi ali, nessa letra que fala sobre o pássaro que somos, voar e revoar e até sobre um certo heroísmo. Não tive dúvidas de que ela seria o single do disco. Uma semana e meia depois entramos em estúdio e gravamos o ‘Revoada’”. Curiosamente, Fernando não toca guitarra, seu instrumento na canção, e prefere optar pelo baixo, deixando as guitarras para Allen Alencar e Davi Serrano.

O clipe foi dirigido por Laura Berbert e Patrícia Araujo e a faixa conta com um coro composto pelas cantoras Paula Tesser, Natália Matos, Laya, Julia Valiengo e Marcelle Equivocada – dando uma pulsão feminina ao single que inevitavelmente passa para o disco: “Como disse a Djamila Ribeiro em uma entrevista, a gente luta por uma sociedade em que nós mulheres possamos existir como pessoa”, ela continua. “O meio musical é extremamente machista, tudo é mais suado pra gente, do querer cantar uma música em determinando tom a ter que lidar com assédios sexuais: a misoginia domina, é um falocentrismo louco. Não estamos lutando para conquistar um espaço novo, lutamos por um espaço que é nosso, que já existe, e que não nos permitem ocupá-lo, vivê-lo. Estamos brigando por coisas tão óbvias e básicas a qualquer uma, como o direito ao aborto,  E, na real, boa parte das nossas pautas envolvem questões de ordem coletiva, falamos sobre justiça social. É claro que existem várias correntes feministas, mas queremos equidade e estamos nos unindo e fortalecendo cada vez mais por isso”.

Não estamos lutando para conquistar um espaço novo, lutamos por um espaço que é nosso, que já existe, e que não nos permitem ocupá-lo, vivê-lo. Esse disco  fala sobre se libertar das máscaras e da ‘roupa velha’ que a sociedade obriga a mulher a vestir

A inspiração do álbum vai além e ela consegue relacionar diretamente com sua ida para São Paulo, para onde se mudou há quatro anos: “Esta cidade me colocou dentro de um espaço-tempo-desejo diferentes. Andar nas ruas, a Casa do Povo, as manifestações, os filmes embebidos de vinho no Cinesesc, as amizades que me abraçaram, o Loki Bicho, o Ocupeacidade, a saudade do mar, de minha mãe…”, ela segue enumerando. 

“Tudo tudo tudo é um atravessamento poético e se encontra no meu desejo pela música. Isto posto, comecei a pensar devagarzinho sobre o que viria a ser o segundo o disco, ou o que viria a ser eu, e a pesquisar poemas, textos, filmes, músicas, tudo que me servisse. Um trabalho que tenho de poemas que reconstruí da Ana Cristina César e Hilda Hilst me serviram de base. O fato é que reuni algumas canções e entrei numa crise porque achei tudo muito paulista, larguei e recomecei. Então a Hayge Mercúrio (realizadora do brechó-happening Loki Bicho) teve a ideia de me apresentar à Alzira Espíndola para ouvir umas coisas e comer um baião nordestino, Esse encontro foi um disparo que me fez chegar nos autores e nas canções que gravei. Fechei quinze músicas, datilografei cada uma delas, cortei verso por verso, embaralhei e remontei para que eu tivesse uma noção de como se comunicariam entre si, se fariam sentido, se contariam uma história, se caberiam... Daí cheguei nas que mandei para Fernando e iniciamos a produção”, explica.

“Esse disco fala sobre o desejo pela compreensão do que é existir com o nosso íntimo e coletivamente. Sobre se libertar das máscaras e da ‘roupa velha’ que a sociedade obriga a mulher a vestir”, ela continua. “O não sentir medo de falar e largar a superficialidade. A luta incansável pela existência. enfim, esses sentimentos que estão sendo usurpados pelo atual momento da política mundial, inclusive fortemente aqui no Brasil.”

Publicidade

Tags relacionadas:
EspecialTudo TantoMPB
Background

Relacionados

Canais Especiais