Tudo Tanto: Uma nova fase de ouro dos Racionais MC's
Especial

Tudo Tanto: Uma nova fase de ouro dos Racionais MC's

0

Publicidade

É indiscutível: os Racionais MCs são a maior banda do Brasil na atualidade, um dos grandes nomes da cultura paulistana e um dos principais nomes da história da música brasileira. Se o rap brasileiro vive sua era de ouro no fim desta década, não há dúvida da influência direta do grupo sobre todos — todos mesmos — os rappers que começaram a fazer música depois que eles se estabeleceram como o primeiro grande nome do gênero no Brasil, no início dos anos 1990.

VÍDEO: Baco Exu do Blues fala sobre a depressão: 'Você não consegue estar feliz' 

ESPECIAL: A Playlist da Vida de Edi Rock, dos Racionais MC’s 

A principal questão em relação aos Racionais neste século diz respeito ao seu papel como líderes de uma parte considerável da nação. São dezenas de milhões de fãs e admiradores que acompanham as palavras e gestos do grupo à espera de uma iluminação, uma epifania ou pelo menos uma palavra de conforto. Desde o lançamento de seu penúltimo álbum, “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, de 2002, que o grupo — e especificamente seu nome de maior celebridade, Mano Brown — vem sendo cobrado e testado sobre esta influência. O atraso histórico do lançamento de seu sexto álbum coincidiu com várias mudanças e incidentes na carreira da banda que tornaram o quarteto cada vez mais recluso e calado — embora todos seus integrantes seguissem trabalhando com música, individualmente, sem carregar o nome que os consagrou em conjunto.

E quando eles começam a desfilar uma a uma músicas de todos os seus discos, não é exagero dizer que estamos assistindo a um filme. Uma superprodução chamada Racionais MCs com os papéis centrais vividos não por atores, mas pelos próprios protagonistas dessa história

Mas a partir do lançamento de “Cores e Valores”, no final de 2014, os Racionais voltaram a se movimentar. O novo disco pegou a todos de surpresa, tanto pela vinda repentina quanto pela duração — meia hora de música, incomparável com o vinil quádruplo que era a duração do álbum anterior. E ao mesmo tempo fez o grupo voltar a fazer shows, dar entrevistas e estar na internet. A nova fase veio próxima ao início da carreira solo de Mano Brown, ao lado de uma banda de funk para declarar-se à black music dos anos 1970, com seu emblemático “Boogie Naipe”.

Este capítulo parece estar chegando ao fim com o show que os Racionais fizeram no sábado passado, dia 24, no Credicard Hall, em São Paulo. O grupo deixou os melindres com o passado de lado e resolveu ele mesmo contar sua história, de forma didática e cronológica — e, principalmente, épica. Em vez de apresentar-se apenas com DJ e vários MCs além da formação clássica — como eram os shows dos Racionais antes do lançamento de “Cores e Valores” —, o grupo agora vinha acompanhado de uma big band de funk regida pelo rapper Lino Crizz, principal parceiro de Mano Brown na guinada musical de sua carreira solo. Mas se em “Boogie Naipe” a intenção era soar o mais diferente possível dos Racionais — chegando ao extremo de ouvirmos Mano Brown cantando pela primeira vez —, neste novo show a missão é outra: tocar ao vivo todos os arranjos e samples sobre os quais o grupo criou a parte melódica de sua obra. 

E por maior que seja a banda (que tem até dançarinos em alguns momentos), ela é coadjuvante. O centro do palco é tomado o tempo todo por Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue, observados por um KL Jay estrategicamente posicionado no topo. Ao colocar o maior DJ de rap do Brasil no centro do palco, rodeado por gigantesca uma banda, o grupo também reforça a importância do papel do DJ, por mais paradoxal que possa parecer.

E quando eles começam a desfilar uma a uma músicas de todos os seus discos, não é exagero dizer que estamos assistindo a um filme. Uma superprodução chamada Racionais MCs com os papéis centrais vividos não por atores, mas pelos próprios protagonistas dessa história. Triste perceber como algumas letras do grupo continuam tocando as mesmíssimas feridas de sempre do Brasil — a desigualdade social, o racismo, a violência urbana, o desespero dos mais pobres, a morte prematura, as péssimas condições de vida, o trabalho desumano, a esperança como única arma. Mas, justamente por isso, elas se tornam ainda mais contundentes e necessárias.

O desfile de clássicos era de cair o queixo. Os Racionais fizeram no palco do Credicard Hall o que os Beatles fizeram ao dissecar sua carreira na série “Anthology”, que Gilberto Gil e Caetano Veloso fizeram ao gravar “Tropicália 2” ou que David Bowie e o Pink Floyd fizeram nas exposições sobre si mesmos no Victoria & Albert Museum em Londres. Mas a diferença de todos estes exemplos é brutal, principalmente porque o grupo se mostra ainda mais necessário do que nunca. E a idade, com a experiência, fez todos os quatro racionais melhorarem consideravelmente: presença de palco, timbre vocal, timing, carisma, paciência. Tudo que já era bom melhorou.

No palco, os três MCs quase não falam com o público, mas também não precisam: têm a audiência na palma da mão e a carregam sem a menor dificuldade. O show terminou com a monumental “Vida Loka (Parte 2)”, igualmente cantada de cor e salteado por todo o público presente, mostrando que os Racionais estão prestes a começar uma nova fase de sua história. Se levarem este show para o resto do Brasil, talvez consigam provocar uma revolução tão grande — e mais importante — do que a primeira que já fizeram. Não é pouco. Mas eles podem.

Publicidade

Background

Relacionados

Canais Especiais