'Tutti-Frutti', primeiro disco de Rita Lee depois dos Mutantes, ainda é cercado de mistérios
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'Tutti-Frutti', primeiro disco de Rita Lee depois dos Mutantes, ainda é cercado de mistérios

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O ano era 1973. De saída dos Mutantes, Rita Lee estava ávida para mostrar ao mundo que existia vida inteligente longe da influência dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Ela resistiu à pressão da gravadora, que desejava vê-la seguir em carreira solo, e convidou a amiga Lucinha Turnbull para formar a dupla Cilibrinas do Éden. Apesar da curta duração, o encontro entre a cantora e a primeira guitarrista profissional do Brasil ainda é cercado por certa aura de mistério e indefinição. Batizado de "Tutti-Frutti", o álbum gravado ao vivo por elas foi vetado pela direção da Phillips, permaneceu esquecido nos acervos até os anos 1990 e jamais recebeu o lançamento oficial com as pompas que merecia.

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O projeto começou logo com um revés. O primeiro show da dupla, marcado para o hoje lendário festival Phono 73 no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, foi um desastre. A organização do evento, que contou com nomes de peso como Jorge Ben, Gilberto Gil e Chico Buarque, marcou a apresentação das Cilibrinas para anteceder os Mutantes. O público, que estava à espera do som pesado e progressivo dos cabeludos, implicou com a nova sonoridade proposta pela ex-vocalista da banda. A ideia delas era apresentar um som acústico, doce e lisérgico, calcado em novas composições praticamente desconhecidas pela audiência. 

Em "Rita Lee: uma autobiografia" (Globo Livros), a cantora relembra o episódio. "Para completar, inventamos de nos vestir a caráter, Lúcia num violão usando asinhas de anjo, eu no outro com antenas de joaninha. Em 'Mamãe natureza', rolou uma chuvinha de papel no palco, uma vaia aqui e acolá. Aguentamos firmes. Na segunda música, as vaias se transformaram em trovão e, antes que um raio caísse sobre nossas cabeças, recolhemos os cacos da insignificância e saímos rapidinho de cena. Sucesso catastrófico". 

Mesmo com o início conturbado, a ideia seguiu adiante com uma alteração: o som deixaria de ser acústico para ser eletrificado. Com o auxílio dos rapazes que formavam a banda Lisergia (Luis Sérgio Carlini na guitarra, Lee Marcucci no baixo e Emilson Colantonio na bateria), o trabalho foi gravado diante de uma pequena plateia nos estúdios Eldorado. A produção foi assinada por Liminha, que na época estreava na função. "A gente contou até três e gravou. A banda estava bem afiada depois de muito ensaio", relembra Lucinha, em entrevista ao Reverb, por telefone. "Existe uma espécie de lenda em torno do disco, mas ele vale como um documento daquela época". 

Existe uma espécie de lenda em torno do disco, mas ele vale como um documento daquela época

No disco, estão faixas que foram regravadas ou relançadas por Rita ao longo da carreira, como "Mamãe Natureza", "Bad Trip" e "Gente Fina é Outra Coisa". No entanto, conta-se que o resultado soou muito alternativo para os ouvidos do franco-brasileiro André Midani. O executivo da gravadora tinha outras pretensões para a trajetória profissional da cantora, uma das grandes apostas da Phillips. O projeto, então, foi engavetado sem muitas explicações. "Eu não participava desse tipo de reunião, mas acho que argumentaram sobre a qualidade técnica do disco. Mas não sei da realidade, quem participava dessas conversas eram os empresários", explica Lucinha. 

Fato é que o veto da gravadora pôs fim às Cilibrinas do Éden. Meses depois, Lucinha foi convidada para fazer parte da Tutti Frutti, banda que acompanhou Rita durante sua fase solo mais roqueira. Ela tocou por três anos, até sair para turnês com Gilberto Gil, Moraes Moreira, Guilherme Arantes e Erasmo Carlos. Em 1980, lançou seu único trabalho solo, "Aroma". 

Era o trabalho de uma banda. Pedi para sentar e conversar, mas o assunto nunca foi para frente

Nos anos 1990, o disco foi encontrado nos arquivos da gravadora e houve uma tentativa de lançar "Tutti Frutti" oficialmente. No entanto, a questão esbarrou em discordâncias financeiras. "Foi uma ideia errônea da parte deles", explica Lucinha. "Me procuraram como se eu tivesse trabalhado como música de estúdio no disco. Era o trabalho de uma banda. Pedi para sentar e conversar, mas o assunto nunca foi para frente".

Em 2008, o disco voltou a frequentar as páginas dos cadernos culturais. Na época, aficionados do exterior conseguiram a cópia de uma fita cassete da gravação, com som em qualidade inferior, que os integrantes da banda tinham desde 1973. A partir dela, os fãs decidiram prensar uma edição pirata do disco, com direito a projeto gráfico caprichado e doze faixas (duas bônus). Em vez de "Tutti Frutti", o álbum foi rebatizado de Cilibrinas do Éden. Desde então, é possível encontrar essa versão à venda em lojas online. Seu conteúdo foi disponibilizado no YouTube e em serviços de streaming. A versão registrada na fita master original, no entanto, continua fora do alcance dos ouvidos do público. 

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