U-Roy, um rei humilde, mostra no Brasil aos 77 anos a mística de pioneiro da arte jamaicana que originou o hip-hop
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U-Roy, um rei humilde, mostra no Brasil aos 77 anos a mística de pioneiro da arte jamaicana que originou o hip-hop

No estúdio Nas Nuvens, no sopé do Corcovado, no Rio de Janeiro, o rei está vestido, modestamente vestido. O senhor franzino de 77 anos aguarda tranquilamente a chegada do patrão Zak Starkey, baterista inglês renomado pelo trabalho com The Who e Oasis, filho do beatle Ringo Starr e dono do selo Trojan Jamaica, em sociedade com a cantora australiana Sharna Liguz. Sshh, nome artístico com o qual é conhecida, o acompanha na espera, derretendo-se de admiração e entusiasmo.

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O jamaicano Ewart Beckford, apelidado U-Roy, está no país para lançar o braço nacional da Trojan Jamaica, gravadora fundada no ano passado por Shhh e Zak. Inaugurada a partir do projeto “Red, Gold, Green & Blue”, que reuniu em seu primeiro volume um dream team da Velha Guarda da ilha caribenha (Toots & The Maytals, Freddie McGregor, Mykal Rose e a cozinha maravilhosa de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare), a gravadora começa agora a trabalhar lançamentos brasileiros: o grupo de hip-hop da Rocinha Covil do Flow e “Extra Extra”, single de Sshh com feat. de BNegão (ex-Planet Hemp), lançado na sexta-feira, 24/1.

Neste sábado, 25/1, U-Roy, que figura no próximo volume de “Red, Gold, Green & Blue” (devem ser cinco, no total) e está lançando um novo single, “Wake The Town”, vai se apresentar com Zak Starkey, Sshh e BNegão na Praça da República, no Centro de São Paulo, às 22h, no show que comemora o aniversário da cidade. No domingo 26/1, U-Roy estará no Rio de Janeiro com a mesma turma, mais o Covil do Flow e Digital Dubs, no lançamento oficial do selo Trojan Jamaica no Brasil, na Casa da Glória (que abre significativamente às 16h20, com previsão de encerramento à meia-noite).

No sábado seguinte (31/1), um show especial, gratuito, vai acontecer na Rocinha, reduto do Covil do Flow. E no dia 2/2 (domingo), a apresentação será na festa para Iemanjá, no Rio Vermelho, em Salvador.

U-Roy no estúdio Nas Nuvens / Foto: Verônica Raner / Reverb
U-Roy no estúdio Nas Nuvens / Foto: Verônica Raner / Reverb

Em dezembro, U-Roy recebeu em Nova York uma coroa de “King”, das mãos do astro do dancehall Shabba Ranks (é possível assistir à cerimônia aqui), que deu alguns de seus primeiros passos na profissão como atração da equipe de som que o veterano tinha desde 1978 com alguns de seus doze filhos, Stur Gav Sound System. U-Roy foi às lágrimas na ocasião, mas, passados menos de dois meses do evento, acaba sendo mais um título, para quem há décadas é chamado de Godfather (of Dub) e Daddy (Papai). “Sou muito grato às pessoas que me veem assim. É uma honra muito grande. Eu estou nesse negócio há muito tempo e, quando você tem o respeito do público, é muito bom”, comenta U-Roy, com humildade.

Ele ao longo da carreira também acostumou-se a ser chamado de “The Originator”, por ter feito, há 50 anos, com imenso sucesso, as primeiras gravações como “toaster”, introduzindo um prática de falar e cantar, “comentando” as músicas. Essa arte daria origem ao hip-hop a partir do trabalho de outros pioneiros como Kool Herc, 64 anos, o DJ jamaicano radicado no Bronx que fundou as bases dessa cultura, em meados da década de 70. E que, como fã desde a adolescência, quando ainda morava em Kingston, nunca se cansa de dar crédito a U-Roy, como exposto nesta entrevista carinhosa, em 2013.

“Foi muito legal quando americanos começaram a falar que eu havia originado o hip-hop, nem acreditei no começo. Quando eu era jovem, havia só os DJs da Jamaica. Era o estilo que eu costumava usar. O cantor vinha cantando antes, aí o DJ saía falando “woooow, you got the stuff”, essas coisas”, conta U-Roy. Ele sempre cita um pioneiro anterior como sua inspiração, Count Machuki (1939-1995), o cara que inventou a onda de falar em cima das músicas, não apenas como um mestre de cerimônias (que na Jamaica, curiosamente, recebeu a nomenclatura de DJ). “O meu DJ favorito era Count Machuki”, lembra U-Roy, elogiando seu fraseado como maior virtude, além de saber seu espaço na música, sem “brigar” com os vocais cantados (ouça Machuki se gabando do pioneirismo aqui). “Quando comecei a fazer aquilo nos bailes não tinha a menor ideia de que hoje estaria aqui falando com você sobre isso. É uma bênção”, comenta.

Machuki só foi gravar depois de U-Roy, e nunca teve a mesma projeção. U-Roy começou adolescente, mas se destacou por saber “surfar” o ritmo, seguindo a melodia, mas sabendo brincar com ela. Sua musicalidade era maior que a de concorrentes como King Stitt. Em 1968, já era o DJ número um do principal sound system de Kingston.

A cena está descrita em “Bass Culture — When Reggae was King”, de Lloyd Bradley, livro que conta a história da música jamaicana e da subcultura que foi gestar, nos Estados Unidos, o hip-hop. Osbourne Ruddock (1941-1989), um técnico em eletrônica que passou de “consertador” de rádios a dono de sistema de som, causava sensação nos bailes que promovia, em 1969. King Tubby, seu apelido e nome artístico, tocava os maiores hits do rocksteady, o ritmo antecessor do reggae — basicamente a soul music americana executada com um acento rítmico local —, em quatro discos diferentes, usando versões sem vocais (intituladas “dub”) para prolongar o prazer dos dançarinos. Era nessa hora que entrava um jovem chamado Ewart Beckford, apelidado U-Roy, soltando o verbo em comentários falados ou cantados, "yeaahs", gritos de excitação e emissões variadas.

“Quando U-Roy veio com ‘Wake The Town’, foi como se uma nova Jamaica tivesse nascido — e ele usa a introdução apropriada na letra: ‘Acorda a cidade e diga ao povo/ Sobre esse disco chegando pra vocês’. Era uma nova era na indústria da música, mas nenhum de nós tinha a menor ideia que isso iria se tornar tão vasto”, lembra, em “Bass Culture”, o colega Dennis AlCapone (hoje com 72 anos), surgido no cenário dos bailões jamaicanos um pouco depois de U-Roy.

Sshh Liguz e U-Roy no estúdio Nas Nuvens / Foto: Verônica Raner / Reverb
Sshh Liguz e U-Roy no estúdio Nas Nuvens / Foto: Verônica Raner / Reverb

Gravada há exatos 50 anos, “Wake The Town” foi a primeira de uma trinca de gravações (com “Rule The Nation” e a clássica “Wear You To The Ball”) que dominou completamente a Jamaica em 1970. Em 1972, U-Roy fez sua primeira excursão ao Reino Unido. Três anos depois, os Estados Unidos já o estavam aplaudindo, a partir do sucesso de “Runaway Girl” e do incrível álbum “Dread in a Babylon”. “Eu ouvia sempre americanos quando era adolescente. Fats Domino, Ruth Brown, James Brown, Louis Prima, The Manhattans, todos esses. Nunca imaginei que pudesse um dia ir até os Estados Unidos. Eu não tinha dinheiro para pagar essa passagem de avião, pra mim, nunca iria acontecer. Mas, quando vi, estava acontecendo mais de uma vez e pensei: ‘Yeaah’!”

A canção escolhida para antecipar o novo álbum de U-Roy, que deve ter participações de Ziggy Marley, Santigold e David Hinds (do Steel Pulse), acabou sendo a mesma com que estreou. A “Wake The Town” de 2020, lançado hoje (sexta, 24/1) tem a bateria de Sly Dunbar, o baixo de Robbie Shakespeare, a guitarra de Tony Chin (da banda Soul Syndicate) e Robbie Lyn nos teclados. A produção é de Youth, o baixista do Killing Joke e responsável por grandes trabalhos de U2, Paul McCartney e The Verve. A mixagem é de David Sardy (Nine Inch Nails, Slayer, Oasis).

Pela quarta vez no Brasil, nação que, como bom jamaicano, aprendeu a amar por causa do futebol, U-Roy diz que aqui, diferentemente do que apontam alguns clichês, a vibe é bem diferente da de seu país, e a dificuldade com a língua local não ajuda. “Mas é o trabalho. Temos que passar por essas barreiras.” O que o faz seguir em frente, encarando viagens longas e turnês? “As pessoas em diferentes partes do mundo ainda estão perguntando por mim, puxa.. Na minha idade ser lembrado é a melhor coisa que existe.”

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