Van Morrison, aos 74 anos, aproveita a quarentena para compor mais canções e tentar uma autobiografia
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Van Morrison, aos 74 anos, aproveita a quarentena para compor mais canções e tentar uma autobiografia

Van Morrison é um dos cantores mais admirados do mundo — e mais produtivos também: há três décadas, lança um álbum por ano. Antes de se isolar em casa por causa do coronavírus, o cantor e compositor irlandês de 74 anos estava em turnê em Londres e divulgando seu recém-lançado livro "Keep 'Er Lit", o segundo volume com os elogiados versos de suas canções (são 120 desta vez). Na quarentena forçada, adivinha o que ele está fazendo: compondo, claro, apesar de se dizer "meio preguiçoso".

Em uma longa entrevista ao jornal "Independent", por telefone de Belfast, na Irlanda do Norte, Van Morrison falou sobre o novo livro de letras e recordou vários momentos de sua carreira. Lembrou, por exemplo, que começou na profissão como saxofonista tenor e, depois, soprano. “Aos 15 anos, eu estava tendo aulas com um cara chamado George Cassidy, era um ótimo músico de jazz. Comecei com o tenor no início dos anos 1960, principalmente nos clubes da Alemanha, quando fiz uma turnê aos 17 anos com o The Monarchs”, explica Van.

Van Morrison durante o show beneficente Music For The Marsden em março em Londres. Foto: Getty Images
Van Morrison durante o show beneficente Music For The Marsden em março em Londres. Foto: Getty Images

Ele diz que se tornou vocalista por "acidente". “Estava numa banda onde ninguém conhecia as músicas, foi assim que me tornei vocalista e parei de tocar tanto sax. Mais tarde, voltei a ele", conta. Na maioria de seus shows hoje em dia, Van canta e toca saxofone. “Quando o peguei de novo na década de 1970, havia esquecido muitas das aulas. Gradualmente, desenvolvi meu próprio estilo, que chamei de 'saxofone celta'", conta.

Seu estilo vocal teve como influências iniciais três pilares da música negra americana do século 20: Leadbelly (1889-1949), Ray Charles (1930-2004) e Sam Cooke (1931-1964). “Desenvolvi meu próprio estilo depois de um tempo, e é isso que se deve fazer se quer continuar na profissão. Ninguém quer algo que é uma cópia de uma cópia. Você tem que colocar seu próprio selo na música”, observa.

O artista, que completa 75 anos em agosto, demonstra memória invejável ao contar histórias da própria vida. Quando tinha 15 anos, largou a escola, mas nem por isso relaxou com a leitura: adorava as publicações do The Jazz Book Club — projeto que lançou 66 títulos sobre música entre 1956 e 1967 —, que o pai costumava comprar.

Um dia, um vendedor apareceu na porta de sua casa vendendo enciclopédias. "Meu pai abriu e fechou a porta na cara dele", lembrou, dando uma risada. O vendedor, que já deveria estar acostumado com a "calorosa" recepção, sabia que a maioria das pessoas em Belfast torcia pelo Glentoran Football Club ou Linfield. “E então ouvimos o cara gritar: 'Espere um pouco, qual seu time de futebol? São os Glens ou os Blues? 'Então meu pai disse: 'Os Glens'. O vendedor, esperto, disse 'Oh, eles são um ótimo time'. Meu pai o deixou entrar e comprou uma coleção. Essa foi basicamente a minha educação: meu pai comprando uma Encyclopaedia Britannica”, disse.

Um pouquinho da paixão por futebol também apareceu em alguns momentos da carreira de Van, como em "Bulbs", que começa com o verso “I’m kicking off from centre field” ("Estou começando do meio-campo"). “Eu costumava ir a jogos com meu pai. Eu gostava de futebol, mas não era tão torcedor assim, gostava mais de jogar como zagueiro do que de assistir”, diz, garantindo que era um bom jogador.

O pai também teve grande influência na formação musical de Van. Ele encomendava discos numa antiga loja em Londres e frequentava a Atlantic Records, em Belfast. "Papai me levava lá todos os sábados desde criança", diz. A mãe dele também era uma boa cantora e ele lembra com carinho sobre os "encontros da noite de sábado", onde amigos e vizinhos se reuniam para cantar.

O novo livro de Van, "Keep 'Er Lit" (editora Faber&Faber) é uma segunda coletânea de letras e traz 120 músicas de todos os períodos de sua carreira. O título remete ao livro anterior, o "Lit Up Inside", lançado em 2014. "Alguns dos meus trabalhos são apenas poesia direta, outros podem ser uma música ou um poema. Alguns são poesia com um backup de música, como 'On Hyndford Street', que foi inspirada nos meus primeiros dias ouvindo a coleção de discos do meu pai e a Rádio Luxemburgo”, recorda, citando Cole Porter. "As letras dele são poesia mesmo. Não acho que exista muita diferença", classifica.

O livro não tem apenas grandes sucessos de álbuns como "Astral Weeks" ("Sweet Thing" está lá), mas composições curiosas e pouco conhecidas, como "Mechanical Bliss", de 1974, onde Van, ironicamente, canta com sotaque inglês de classe alta. "Lembro-me bem de 'Mechanical Bliss', porque também toquei piano. É provavelmente uma das únicas faixas em que toquei tantos acordes no piano. Foi inspirada na comédia britânica 'The Goons', que eu cresci assistindo", explicou.

Cumprindo o distanciamento social como devido, Van diz que anda se concentrando em seu trabalho com a editora Faber, que está disponibilizando suas canções em formato de poesia on line, interpretadas por professores, como Eamonn Hughes, que ensina literatura na Queen's University Belfast, e poetas, como Paul Muldoon e Scarlett Sabet.

Além das coletâneas com suas letras, Van também pensa em escrever uma biografia, mas reclama que é algo muito trabalhoso. "Estou trabalhando nisso interna e externamente, mas é um trabalho árduo! Às vezes eu sinto que tenho uma certa parte que quero escrever, mas depois seca por um tempo. Sou realmente muito desorganizado e é preciso muita disciplina para escrever esse tipo de livro. Eu costumava escrever em uma máquina de escrever, mas a perdi em alguma mudança, então hoje eu escrevo à mão", revela.

Ele conta que está tentando aproveitar para ler também "Tenho mais tempo agora, então provavelmente lerei mais. Tenho uma compilação de Samuel Beckett em cima da mesa e ainda não a abri", revela. Van estava no agitado ritmo de uma série de shows em Londres quando teve que ir para casa cumprir a quarentena. "Claro que eu quero compor, mas estou um pouco preguiçoso", confessa ele, que no dia 3 de março ainda participou do concerto beneficente "Music for the Marsden", organizado por Eric Clapton para angariar fundos para a The Royal Marsden Cander Charity. Na ocasião, Eric e Van tocaram juntos "Three Chords & the Truth" e "Does Love Conquer All?", faixas do álbum de Van lançado ano passado.

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