Vímana: a banda que juntou Lobão, Lulu Santos e Ritchie e nunca lançou um disco
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Vímana: a banda que juntou Lobão, Lulu Santos e Ritchie e nunca lançou um disco

Em 1976, três personagens que agitariam a música brasileira a partir dos anos 1980 se reuniram no Estúdio Level, em Botafogo, para gravar um disco que jamais veio a público. Jovens e relativamente desconhecidos, Lulu Santos (guitarra), Ritchie (vocais e flauta) e Lobão (bateria) formavam o Vímana, ao lado de Luiz Paulo Simas (sintetizadores e teclado) e Fernando Gama (baixo). O nome da banda, palavra do sânscrito usada para descrever as carruagens de fogo dos deuses, não poderia ser mais adequado para refletir a trajetória quase surreal do efêmero conjunto carioca.

A banda de rock progressivo era um sucesso no incipiente circuito underground do Rio de Janeiro e arrastava pequenas multidões para os shows que fazia no Museu de Arte Moderna e no então Teatro Tereza Rachel. O bafafá em torno dos cabeludos gerou o interesse da Som Livre, que encomendou a gravação. No entanto, apenas uma pequena parte dela seria conhecida pelos fãs.

Vímana: banda com Lulu Santos, Lobão e Ritchie fazia som alternativo nos anos 1980 / Foto: Reprodução
Vímana: banda com Lulu Santos, Lobão e Ritchie fazia som alternativo nos anos 1980 / Foto: Reprodução

Das sessões registradas no estúdio, à época um dos mais bem equipados da cidade, duas faixas foram pinçadas para integrar um compacto simples, lançado no ano seguinte: "Zebra", que deu nome ao disquinho, e "Masquerade". No entanto, a dificuldade da gravadora em encontrar um mercado para a banda fez com que o projeto de LP fosse arquivado. Ao longo dos anos, algumas lendas circulavam a respeito do disco. E muita gente dizia que o som, cheio dos rococós característicos do prog, soava datado e havia sido rejeitado posteriormente pelos próprios ex-integrantes da banda.

"Acho que o material era muito bom", relembra Simas por e-mail. "'On the Rocks' era cantado pelo Ritchie em inglês, música e letra dele com arranjo nosso, muito original e cheia de compassos irregulares, sons inovadores de sintetizador, baixo contundente do Fernando Gama, a guitarra rebelde do Lulu, a bateria energética do Lobão… 'Cada Vez' era uma balada lindíssima do Lulu. 'Perguntas', do Lulu, era um funk (no sentido original de 'funk') muito brabo, o mesmo que se pode ouvir no YouTube, na gravação do Hollywood Rock, mas no álbum com o Ritchie cantando em português (eu e os outros nos vocais de fundo). E outras mais de que não me lembro".

Datado ou não, o fato é que o Vímana era formado por excelentes músicos e abusava do virtuosismo de seus integrantes para apresentar nos shows longos solos de guitarra e bateria, por exemplo. Simas conta que a resistência dos radialistas em tocar as músicas da banda também influenciou na decisão de engavetar o álbum, que jamais foi ouvido pelo público na íntegra.

"Não sei como era a política dentro da Som Livre. Quem nos contratou foi o Guto Graça Mello, mas algo aconteceu na gravadora e eles resolveram lançar primeiro um compacto simples com duas músicas do álbum; o disco ficou para ser lançado depois. O prog brasileiro ainda era muito popular entre os aficionados, mas sempre foi muito pouco tocado nas rádios. Acho que o fato determinante para o álbum não ser lançado foi o fato de que o compacto simples foi basicamente ignorado tanto pelas rádios como pelo próprio departamento de divulgação da Som Livre (que não entendia nada daquele tipo de música), e como as vendas foram muito fracas, a gravadora resolveu enterrar o projeto".

Como toda boa banda de rock, o Vímana passou por alguns percalços por conta da personalidade de seus músicos. Mesmo sem ter conhecido a fama que viria na década posterior, os integrantes já tinham gênio forte. Como todos moravam juntos em uma casa em Santa Teresa, os problemas de convivência eram algo comum. Simas, no entanto, relembra com carinho daquela época.

"Tinha seus momentos de dificuldade e momentos de muita alegria" conta. "Quando tudo estava dando certo (acontecia quase sempre) era ótimo… Mas em algumas vezes, quando problemas de relacionamento pessoal se misturavam no palco, aí o circo pegava fogo”.

Esses problemas de relacionamento, inclusive, foram determinantes para o fim da banda. O grupo começou a desmoronar quando Patrick Moraz, ex-tecladista do Yes, chegou ao Rio de Janeiro e escolheu o Vímana para ser seu grupo de apoio. No entanto, incomodado com o carisma de Lulu, fez a cabeça do grupo para que o guitarrista fosse expulso. Iludidos por promessas de sucesso e gravações internacionais, os rapazes seguiram a sugestão do suíço. A parceria com o roqueiro gringo nunca foi para a frente e terminou de maneira espetacular, conforme Lulu relembrou em uma entrevista nos bastidores do seu Acústico MTV

"Era uma música estapafúrdia, muito pior que o Vímana era. O negócio foi deteriorando, deteriorando e acaba espetacularmente com o meu herói Lobão roubando a mulher do cara, a casa do cara, a família e o piano de cauda. Bicho, o cara saiu com o rabo entre as pernas e o Lobão com tudo".

Simas diz que desconhece o paradeiro da fita com a gravação original e afirma que deseja vê-la lançada oficialmente algum dia. O jornalista e crítico musical Arthur Dapieve, que dedicou um capítulo de "BRock" (Editora 34) ao Vímana, no entanto, acredita que as chances de lançamento do álbum são pequenas.

“Imagina, Lulu, Ritchie e Lobão, para ficar só nos três que ganharam notoriedade, concordando em alguma coisa... Os caminhos que suas vidas tomaram, não apenas em termos musicais, tornam bem difícil uma conversa nesse sentido".

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