Violoncelista argentino ensina a arte de levar música aos que sofrem
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Violoncelista argentino ensina a arte de levar música aos que sofrem

Entre seringas, soros e macas, oboés, violinos, violoncelos e flautas. A ideia de um hospital transformado em sala de concerto parece estranha, mas foi a solução encontrada por Jorge Bergero, um violoncelista argentino, e sua namorada, a flautista Maria Eugenia, para transformar a dor da luta contra um câncer em razão de viver. Músicos profissionais, Bergero e Eugenia estavam juntos quando ela descobriu a doença. Mesmo com a gravidade do diagnóstico, os dois enxergaram ali uma oportunidade de usar o dom que tinham para levar um pouco de alento àqueles que passavam por situação semelhante. Foi assim que surgiu o projeto “Música Para a Alma”, que já reuniu milhares de musicistas para se apresentarem gratuitamente em hospitais, orfanatos, asilos e outras instituições de cuidado.

“A missão do ‘Música para a Alma’ é levar música de maneira solidária, gratuita e independente com músicos profissionais que doam sua arte para pessoas que por sua situação de vida, seja marginalidade, enfermidade ou deficiência, não podem ir aos teatros e salas de concerto onde tocamos profissionalmente. Levamos música ao vivo para onde eles estão”, contou Bergero, em entrevista por e-mail.

Maria Eugenia morreu em dezembro de 2011, aos 34 anos. A sabedoria e a inteligência emocional demonstradas por ela durante o período que enfrentou a doença não permitiram que o projeto parasse após sua morte. Bergero e seu time seguiram adiante. De amigo em amigo, a música preencheu os espaços entre os leitos do hospital.

Os concertos de “Música para a Alma” já foram realizados em dez países em três continentes. Foram quase 400 apresentações com a ajuda de mais de 2.500 mil músicos voluntários. O mais impressionante, segundo Bergero, é perceber que o impacto das sessões não é sentido somente pelos enfermos, idosos e crianças que a orquestra itinerante encontra pelo caminho, mas também pelos músicos que se dispõem a doar um pouco de seu tempo e de sua arte. “A música cria uma grande alegria espiritual. Isso permite que as pessoas se libertem dos limites impostos por sua situação corporal. Podemos ver as sensações que acompanham essa conexão com sorrisos, lágrimas, e isso é muito impressionante para os músicos porque o mesmo lugar, que parecia triste na chegada, se ilumina e vemos todo mundo profundamente grato quando saímos”, diz ele, em entrevista ao Reverb.

A música cria uma grande alegria espiritual. Isso permite que as pessoas se libertem dos limites impostos por sua situação corporal.

Entre os momentos mais marcantes desta jornada, o violoncelista lembra da história de uma senhora que iria operar no dia seguinte ao da visita ao hospital. Ex-bailarina clássica, ela passaria por uma cirurgia e temia não sobreviver ao procedimento. Com seu instrumento, Bergero optou por interpretar “A morte do cisne”, famoso movimento de balé criado pelo coreógrafo Mikhail Fokine no começo do século XX, para a bailarina russa Anna Pavlova. Logo no começo, Bergero percebeu que a senhora fazia a coreografia no leito, com as mãos. “Foi um dos momentos mais mágicos que tenho lembrança. Ela estava dançando com as mãos a música sobre a morte do cisne que eu estava tocando ao lado de sua cama. Ao fim, beijei as mãos dela e terminamos todos chorando”.

Jorge Bergero: 'A música cria uma grande alegria espiritual. Isso permite que as pessoas se libertem dos limites impostos por sua situação corporal' (Foto: Agustin Benencia/Divulgação)
Jorge Bergero: 'A música cria uma grande alegria espiritual. Isso permite que as pessoas se libertem dos limites impostos por sua situação corporal' (Foto: Agustin Benencia/Divulgação)

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