Wesley Nóog, 12 anos de estudo de teologia, crê no samba como força de transformação social e cura: 'Acende a chama da fé'
Inspiração

Wesley Nóog, 12 anos de estudo de teologia, crê no samba como força de transformação social e cura: 'Acende a chama da fé'

Os almoços de domingo na casa de Wesley Nóog revezavam entre uma boa macarronada ou feijoada. A escolha musical, porém, era sagrada: muito samba. A festa em família era tradição depois dos cultos na igreja metodista e persiste na memória do sambista paulistano de 54 anos. Das celebrações ao som de Clementina de Jesus, Beto Sem Braço e Cartola, Wesley construiu uma carreira que completa 20 anos em 2020, com o lançamento de seu sétimo álbum, “O Samba É Da Gente”, produzido por Paulão Sete Cordas.

“Um dia eu acabei indo a uma roda de samba que o Paulão produz, a Gloriosa, e me convidaram para dar uma canja. Eu fiquei surpreso, não imaginava. Fiquei até emocionado, mas peguei o microfone e cantei", relembra Ocimar Wesley Nogueira, seu verdadeiro nome, sobre o dia em que conheceu o produtor, conhecido por trabalhar com Zeca Pagodinho. Uma das músicas escolhidas naquele dia foi “Meu Mundo É Hoje”, de Wilson Batista (1913-1968). “Esse samba é de uma beleza absurda: a melodia, a letra... Quando eu ouvi, fiquei com uma inveja do bem do Paulinho”, brinca, confundindo-se com a autoria (Paulinho gravou o samba, mas foi apenas intérprete da composição de Wilson, que assina clássicos do gênero como "Acertei No Milhar", "O Bonde de São Januário", "Emília" e "Oh! Seu Oscar".

O sambista Wesley Nóog / Foto: Divulgação
O sambista Wesley Nóog / Foto: Divulgação

“Eu vi que o Paulão ficou me olhando sério, fiquei pensando: ‘Será que eu pisei na bola? Se eu cantei errado alguma nota?’. No final, eu fui cumprimentá-lo e ele falou que tinha gostado muito e nós fomos ficando amigos”, conta. No ano passado, quando Wesley começou a trabalhar em seu novo projeto, Paulão disse que queria produzir o disco e os dois passaram cerca de quatro meses no estúdio.

Para Wesley, “O Samba É Da Gente” coloca os pés dentro das raízes do samba, sem deixar de procurar nos tempos atuais os temas de seus versos. “Em ‘Só Por Ela’, por exemplo, a gente fala da mulher negra, que tem ganhado espaço na mídia por uma questão de obrigação social de se falar de negros, mas as pessoas não sabem como é o dia a dia da mulher negra, como ela se comporta, como ela vive. Não sabem o significado da (vida) da mulher negra que mora no morro. É um tipo de alerta sutil para despertar a atenção das pessoas.”

Em “Silêncio”, Wesley canta sobre as favelas e sobre o silêncio da sociedade e das autoridades sobre o que acontece nas comunidades e nas camadas mais sensíveis da população. “O bicho pega na favela o ano inteiro. A conta é paga de janeiro a janeiro. Há um grande silêncio, cemitério. Ninguém entende esse mistério de pagar a conta e sofrer calada diante das leis assinadas na madrugada por um congresso corrupto sem coração”, diz a letra da canção.

A tradição da família protestante levou Wesley a estudar Teologia por 12 anos. Ele conta que sua autodescoberta como artista mostrou que o caminho a seguir era o do samba. Não que a religião cristã e o gênero não pudessem coexistir, mas o sambista preferiu investir naquilo que ele percebia como um dom. “Eu percebi que vim ao mundo para isso (fazer samba) e estava dentro de uma organização que eu não estava contribuindo muito. Preferi abrir espaço para quem quer descrever Deus de maneiras melhores. Sou um espiritualista, eu creio no que as pessoas chamam de Deus, mas Deus é uma palavra muito complexa, as pessoas a entendem de maneiras muito variadas. A gente não sabe de fato como definir essa força poderosíssima que equilibra o universo. É inexplicável”, reflete.

No atual contexto da crise provocada pelo coronavírus, o sambista aposta no poder do samba como ferramenta para contar histórias, resistir e reerguer as pessoas. “Clareia, deixa clarear. É uma luz de Deus o samba. Ilumina a mente e o coração, alumia a alma e nos livra da escuridão. Guia nossos passos, acende a chama da fé, perdoa os nossos pecados, o samba é o filho do axé”, canta o músico em “Luz de Deus”, composição de Altair Barbosa e Wagner Nascimento.

“O samba é social, político, econômico e cultural. Ele não é um puro elemento para o entretenimento, ele tem funções sociais, políticas, econômicas. Uma delas também vem da parte espiritual, daquilo que não se toca, que é intangível, algo que está além do que a gente vê e do que a gente ouve. Ele desperta a alegria e ameniza a dor. Quando a gente fala de luz, fala de Deus. Isso parece terminologia desgastada no contexto atual de tanta disputa por religião, mas de alguma forma, quando você consegue separar o joio do trigo, você percebe que a luz tem uma função: sem ela é impossível viver. Esse conceito de Deus que muitos denominam de várias formas — Alá, Buda, Krishna… — é uma energia só.”

‘O samba é social, político, econômico e cultural. Ele não é um puro elemento para o entretenimento’, diz Wesley Nóog / Foto: Divulgação
‘O samba é social, político, econômico e cultural. Ele não é um puro elemento para o entretenimento’, diz Wesley Nóog / Foto: Divulgação

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