Yacht Rock Revue: a banda cover que recuperou 'Africa', do Toto, antes do Weezer, e agora é autoral
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Yacht Rock Revue: a banda cover que recuperou 'Africa', do Toto, antes do Weezer, e agora é autoral

Nick Niespodziani não esconde sua insatisfação e até uma ponta de vergonha pelo início de carreira com a Yacht Rock Revue. Formada em 2008, o grupo embalava casais de rostinho colado em clubes, divertia o público de eventos corporativos e animava cruzeiros temáticos com suas releituras soft rock. Ou melhor, yacht rock, termo que designa o rock voltado para adultos produzido nos anos 1970 e 1980 na costa oeste dos EUA: sempre bem tocado, bem gravado e polido segundo os padrões radiofônicos daquela era. Depois de mais de uma década de muito sucesso nesse circuito, a banda de baile transcende o nicho lançando um álbum autoral e uma nova turnê.

O vocalista de 41 anos, sempre esteve em conflito por causa da Yacht Rock Revue que, para ele, era uma maneira de ganhar a vida e não algo musicalmente criativo. “Quando começamos, eu não estava superorgulhoso de fazer parte de uma banda cover. Mas comecei a perceber a alegria nas pessoas, que mudou meu pensamento e meu coração. Daí começamos a pensar em fazer um álbum original”, conta Nick, em entrevista à "Rolling Stone".

Os integrantes da Yacht Rock Revue, que está em turnê com músicas do novo disco. Foto: Getty Images
Os integrantes da Yacht Rock Revue, que está em turnê com músicas do novo disco. Foto: Getty Images

A banda de sete músicos — Peter Olson, Greg Lee, Dave Freeman, Mark Dannells, Mark Cobb, Mark Bencuya e Nick Niespodziani — acaba de lançar seu primeiro álbum completo de inéditas chamado "Hot Dads In Tight Jeans". "Nunca parei de escrever músicas, apenas o fiz para bandas menores e em diferentes tipos de situações. Pareceu o momento certo para gravar esse novo disco. Nossos fãs nos tratam como artistas, então, por que não experimentamos? Até agora, eles foram incríveis. Já estamos tocando algumas faixas nos shows e as pessoas realmente gostam. Nem todo mundo se levanta para ir ao banheiro", brinca Nick em entrevista à "303 Magazine".

Músicas como “The Doobie Bounce” e “Step” transformam a noção de yacht rock ou soft rock em algo imersivo. São faixas que podem até mesmo ser comparadas a qualquer coisa mais recente do Tame Impala. "Terminamos de gravar o álbum e quando o mixamos o Tame Impala começou a vazar faixas do novo álbum. Eram muito parecidas com os sons que tínhamos em nosso disco, e isso me fez sentir muito encorajado, que a música que gravamos não seria descartável ou irrelevante", diz o cantor. Ele estudou para ser cantor de ópera, sonhou em tocar em uma banda como os Beatles e fez Direito na universidade de Indiana, onde montou o YRR.

Sobre "Step", o vocalista diz ser uma de suas faixas preferidas: "Eu realmente gosto da música, que acabou sendo nosso primeiro vídeo. Ela tem uma mensagem sobre a liberdade de ser você mesmo, algo que todos aprendemos por estar nessa banda. É por isso que nomeamos o álbum 'Hot Dads In Tight Jeans'. É como dizer 'não fuja do que você é, e siga em frente'. Uma outra que significa muito para mim é 'My Favorite Stardust', que escrevi para minha filha".

O multi-instrumentista Olson diz que a banda pretendia expandir os limites do que é ou pode ser um "rock de iate". "Sentimos a liberdade de redefinir um pouco o gênero, mais como uma atitude do que um som. Não estávamos vinculados apenas a pianos elétricos, harmonias super luxuriantes e solos de saxofone, mas há elementos disso”, diz.

A banda credita o produtor Ben Allen por ajudá-los a conectar o soft rock do passado e o crescimento atual. “Ben tem sido fundamental para encontrar o meio termo entre permanecer fiel ao que a banda sempre fez na vibe do yacht rock, mas não ter medo de gravar um disco que pudesse se encaixar num estilo Justin Timberlake ou Lizzo”, diz Niespodziani.

A faixa "Another Song About California", por exemplo, abre com uma linha de sintetizador que acena para "She's Gone", de Daryl Hall e John Oates, antes de começar sua própria jornada psicopop. Aliás, inspiração certamente vinda da experiência que a banda tem também de tocar com os músicos de quem faz covers. Aliás, Niespodziani aponta como uma das melhores experiências justamente os shows em que acompanharam para Oates. "Eu fui Daryl Hall para John Oates quando tocamos 'She's Gone', que foi bem épico, muito divertido", lembra ele.

Desde que se formou em 2008, a Yacht Rock Revue caprichava em um repertório que invariavelmente incluía "Brandy", do Looking Glass, "Lido Shuffle", de Boz Scaggs, "How Long", do Ace, e, claro, "Africa", do Toto — numa versão bem anterior à do Weezer. "Se você quiser me dar crédito por ter recuperado essa música, eu aceito!", costuma brincar Nick. "Acho que de certa forma, ajudamos, estávamos surgindo no momento em que o público tomou consciência do yacht rock. Não importa o que alimentou quem, vamos continuar surfando essa onda", comentou, no ano passado, em entrevista ao "Inside Hook".

Nesses anos todos angariou um público fiel, que compra ingressos com antecedência e canta junto, principalmente os hinos de Christopher Cross, Doobie Brothers, Michael McDonald e Robbie Dupree — em especial seu hit de 1980, "Steal Away".

Ainda assim, Niespodziani nunca conseguiu embarcar completamente na onda cover setentista e oitentista que ele ajudou a formar. Quando a banda tentou lançar o álbum de inéditas “Can’t Wait For Summer” em 2012, o resultado foi tímido. "Nossos corações não estavam lá e nós meio que pedimos desculpas por isso", reconhece.

O que um dia funcionou apenas como ganha-pão para o vocalista, hoje o repertório yacht e soft rock é motivo de orgulho. “Sempre pensamos que a moda terminaria, mas as pessoas não largam essas músicas! Elas são campeãs nas listas de reprodução de áreas públicas", destaca Olson.

Atualmente em uma turnê nos Estados Unidos, a banda está esperança de que seus fãs principais adotem o "novo" yacht rock. Eles já incluiram "Bad Tequila" (primeiro single do álbum) e "Step" ao lado de hits como "Escape (The Piña Colada Song)" e "Baker Street". "Não tocaremos todas as dez músicas do álbum. Provavelmente interpretaremos algumas faixas, mas também Hall & Oates, Michael McDonald e todas as coisas que as pessoas gostam de ouvir", avisa Niespodziani.

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