Yang Joon-il, precursor renegado do k-pop, é redescoberto após período de humilhações e ostracismo
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Yang Joon-il, precursor renegado do k-pop, é redescoberto após período de humilhações e ostracismo

Em 1991, Yang Joon-il fazia sua estreia musical na Coreia do Sul. O jovem que tinha cabelos longos, usava brincos e maquiagem e cantava músicas com versos em inglês não agradou nem público nem crítica. O país ainda sentia o peso dos anos de ditadura militar e tal visual "fora dos padrões" não foi bem recebido. Yang, que chegou a ser apedrejado em público, experimenta agora uma grata redescoberta por uma nova geração de fãs. Mas a experiência daquele turbulento começo não o deixa mais se iludir com o estrelato. "Durante muito tempo me senti um lixo pelo modo como as pessoas me tratavam", diz em entrevista à "Billboard".

O grupo Seo Taiji and Boys, criado em 1992, é sempre citado como o primeiro representante do k-pop, pelo menos como o gênero é conhecido atualmente. Mas um ano antes, o jovem Yang Joon-il lançava "Rebecca", seu primeiro single, e chocava as plateias. Com uma aparência considerada extravagante na época, ele foi ameaçado inúmeras vezes e agredido durante um show. "Eu simplesmente senti que eu e a Coreia éramos incompatíveis", diz Yang em entrevista ao "South Chine Morning Post".

Hoje, aos 50 anos, está desfrutando de um retorno impensável, graças à geração das mídias sociais. Em 2018, as estações de TV sul-coreanas começaram a transmitir programas de música pop arquivados no YouTube e desde então, o burburinho se alastrou. Teve ainda o canal do YouTube “Online Tapgol Park” e o convite para participar do programa de TV "Two Yoo Project Sugar Man", onde cantou "GaNaDaRaMaBaSa", "Dance With Me Miss", "Fantasy" e sua primeira música, "Rebecca". Pronto, Yang havia sido redescoberto. “Ele se parece com o G-Dragon, mas muito mais legal”, era um dos comentários mais comuns, comparando Yang ao líder do BigBang. Outros duvidavam: "É um novo artista? Isso foi há 30 anos, como é possível?". Outros lamentaram: "Por que ele tinha que ter surgido tão cedo? Há 30 anos ninguém teve capacidade de reconhecer sua genialidade".

Yang surgiu em um momento em que "uma explosão do pop coreano tinha de coexistir com um clima social ainda conservador", diz Keung Yoon Bae, pesquisador de cinema e mídia de Harvard. Era uma questão de tempo, mas Yang parou antes. "Eu realmente achava que não estava adiantado", diz. O professor de sociologia John Lie, da Universidade da Califórnia, discorda, chamando-o de "figura pública pioneira da apresentação do eu não machista, indicando uma tendência de gênero".

O filho de pais coreanos nascido no Vietnã emigrou para os Estados Unidos ainda criança, estudou na University of Southern California e decidiu ir para a Coreia ser cantor aos 22 anos. Além da questão da aparência, ele também sofreu xenofobia durante a breve passagem pelo mundo artístico, ouvindo coisas do tipo "você veio para roubar nossos empregos".

Enfrentando o preconceito e o desinteresse das gravadoras — afinal, ele era um "produto" arriscado —, Yang abandonou os palcos e passou a trabalhar como professor de inglês. "A classe dominante achava que eu era uma má influência e havia uma divisão radical entre as pessoas que gostavam de mim e as que realmente não gostavam — e mais pessoas pareciam não gostar de mim", lembra.

Os fãs que conseguiu reunir sofriam tanto preconceito quanto seu ídolo. "Nos bares de karaokê, as pessoas simplesmente desligavam a máquina quando a música dele tocava. As pessoas diziam que ele era muito estranho", diz um deles.

Após uma tentativa frustrada de retorno no início dos anos 2000 com um grupo de rock, Yang decidiu se afastar da música e voltou para os Estados Unidos em 2015. Casado e com um filho, conseguiu emprego como garçom na Flórida.

E foi como um simples mortal que a fama o alcançou novamente três décadas depois. Com o compartilhamentos dos vídeos e a posterior participação no programa de TV, Yang conta que tudo o assustou à princípio. "Quando as pessoas começaram a enviar meus vídeos antigos para o Youtube, eu pensei: 'Ah, não, por favor, as pessoas vão começar a me xingar de novo'. Demorou tanto tempo para as pessoas me esquecerem que eu não queria me tornar um problema novamente. Alguns anos depois, eu ainda sentia os efeitos do desprezo, o que faz você querer ficar em casa", conta.

Mas a nova geração teve uma percepção totalmente diferente de sua arte e uma das opiniões mais recorrentes é que sua música e dança soam totalmente atuais. Yang atribui todo esse interesse a uma certa aura misteriosa que o envolvia. "Uma das razões é que eu não estava na Coreia e sim na Flórida, onde a comunidade coreana é muito pequena lá. Eu estava completamente fora de alcance. E realmente, não me via mais como artista - eu tinha um bloqueio mental que não conseguia superar", diz.

Yang conseguiu assinar contratos de publicidade, como com o salão coreano Jenny, frequentado por celebridades. Foto: Reprodução Instagram
Yang conseguiu assinar contratos de publicidade, como com o salão coreano Jenny, frequentado por celebridades. Foto: Reprodução Instagram

O sucesso repentino o fez voltar para a Coreia, acompanhado da família. Ele já ganhou mais de 60 mil novos inscritos em seu fã-clube on-line, assinou contratos de publicidade, teve dois "meet and greet" esgotados em dezembro, ganhou um prêmio especial no The Fact Music Awards 2019 e já fez shows para plateias empolgadas em Seul. "Não há palavras para descrever. Eu quase não podia respirar”, disse, emocionado, depois de um show.

É fácil perceber a impactante mudança na vida de Yang, que pulou do anonimato para novos holofotes, através de suas redes sociais. A primeira publicação de seu Instagram é de 14 de dezembro de 2019, enquanto que em seu canal no Youtube a publicação mais antiga tem quatro meses.A rejeição do início de carreira ainda é um fantasma para Yang, mas o faz ter os pés no chão. "Eu não vivo pela fama. Eu poderia voltar a ser garçom amanhã. Estou muito feliz por esta oportunidade, mas não vou fazer sacrifícios para manter a popularidade", afirma.

Em vez disso, ele agradece o quanto pode aos novos fãs e, principalmente aos que reencontraram depois de todos esses anos. Um deles é seu atual empresário, que costumava organizar encontros em lanchonetes. "Sinceramente, estarei aqui enquanto os fãs quiserem que eu esteja", diz ele, que prefere não saber por que tudo isso está acontecendo. "Se eu estivesse tentando, provavelmente não teria acontecido. Se eu tentar seguir uma fórmula ou descobrir como e por que isso aconteceu, tudo vai desmoronar. É por isso que prefiro não assinar com nenhuma gravadora daqui. Eu não me encaixo em nenhuma fórmula, é ridículo tentar me enganar com isso", explica.

Yang lançou a autobiografia "Yang Joon Il Maybe" em fevereiro. Foto: Reprodução Instagram
Yang lançou a autobiografia "Yang Joon Il Maybe" em fevereiro. Foto: Reprodução Instagram

O cantor, que lançou uma autobiografia em fevereiro intitulada "Yang Joon Il Maybe", diz que ainda se sente surpreso e questiona se tudo isso está realmente acontecendo. Sobre sua segurança e desenvoltura atual no palco, mesmo tendo ficado 30 anos afastado, ele diz que é porque sabe que não tem nada a perder. "Não fico nervoso porque não tenho nada a perder. Por que passar pela dor novamente? Eu trabalhei em uma loja de atacado e, quando você é o cara novo, tem que tirar o lixo. Eu usei muito esse termo 'tirar o lixo' porque, durante muito tempo, me senti um lixo pelo modo como as pessoas me tratavam. Eu precisava aprender a jogar fora esses sentimentos. Ainda assim, sei que ainda há algo precioso lá", conta Yang.

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